Como diria Serge Katz:
Não quero mais ver ninguém escrever que a seleção brasileira não empolga.
Eu sou Corinthiana. Eu sei o que é amar uma causa que às vezes parece não te merecer. Eu conheço de cor aquela sensação de estar de coração na garganta, de torcer com o corpo inteiro, de xingar baixinho e rezar alto — às vezes ao mesmo tempo. Eu fui treinada por décadas a transformar ansiedade em fé. A encontrar beleza no sofrimento coletivo.
Então quando eu vejo casas decoradas, famílias reunidas, crianças com a camisa verde-amarela e o número 10 nas costas — eu reconheço aquilo. Conheço aquele brilho no olho. Aquela mistura de esperança e medo que só quem ama de verdade carrega.
Isso não é indiferença. Isso é amor com cicatriz.
Mas existe uma tensão que precisamos nomear.
Porque se o povo nunca largou a seleção, houve quem tentasse transformar o futebol em outra coisa. João Havelange — brasileiro, pasmem — presidiu a FIFA por 24 anos e foi o arquiteto de uma globalização do futebol que tinha tudo para ser gloriosa. Em partes foi. Mas também abriu as portas para que o futebol se tornasse, acima de tudo, um negócio.
E negócio tem lógica própria, fria. Lógica que não sabe o que fazer com garra.
Gianni Infantino levou essa lógica adiante — Copa de 48, acordos bilionários, calendário estourado, jogadores espremidos entre clube e seleção como se fossem ativos a depreciar. O futebol cresceu em receita. Mas algumas seleções nacionais começaram a parecer franquias. Marcas. Produtos gerenciados por consultoria.
E aí o torcedor sente. A Corinthiana em mim sente especialmente — porque eu cresci num clube que também já foi tratado como mercado, como número, como problema a resolver. E aprendi que quando a alma sai do jogo, o torcedor percebe antes do técnico.
Falando em alma: Nelson Gonçalves sabia de algo que nenhum contrato milionário ensina.
(Em breve, o podcast sobre ele volta — e prometo que vale cada segundo da espera.)
Nelson cantava o Brasil com uma entrega que não era performance. Era confissão. Aquela voz rouca, aquele fado carioca, aquela saudade transformada em presença. Ele entendia — na carne, na voz — que certas coisas não se vendem, não se escalam, não cabem em planilha. São sentidas. São vividas. São cantadas às três da manhã quando a dor precisa de forma.
O futebol brasileiro, no seu melhor, sempre foi assim. Não foi sistema. Foi alma cantando em campo.
E por isso as casas continuam sendo decoradas.
Não porque a CBF mandou. Não porque o patrocinador pagou. Mas porque existe algo no brasileiro — nessa mistura impossível de povos, dores, alegrias sobrepostas — que encontrou no futebol uma linguagem comum. Uma liturgia.
Eu, Corinthiana, entendo isso no osso. A gente não torce apesar do sofrimento. A gente torce através dele. A ansiedade não é sinal de que algo está errado — é sinal de que algo importa demais para ser tratado com distância.
A seleção empolga? Empolga tanto que dói. Tanto que a gente xinga e abraça no mesmo minuto. Tanto que adulto chora sem vergonha e criança aprende antes da hora que a vida tem virada.
Isso não é produto. Isso não tem CEO. Isso não cabe em relatório de Infantino nenhum.
Isso é povo. Isso é Brasil.
E enquanto o povo acreditar — e o povo sempre acredita, pergunte a qualquer Corinthiana —
a seleção vai ter alma.
Imagem: Ruas de Taboão da Serra são enfeitadas para a Copa do Mundo – O Taboanense https://share.google/AtHlqE4GIj4qKHFcC









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