Contos de Outrora — O Peso do Que Falta

Esta imagem precisou ser criada com IA, e era minha intenção de trazer o surrealismo da saudade.

I.

Às vezes perguntavam a ele se valia a pena viver entre partidas e retornos.

Nunca respondia de imediato. Guardava a pergunta durante dias, deixando que ela encontrasse um lugar onde pudesse fazer sentido. Só então respondia, quando as palavras já não pareciam resposta, mas algo descoberto no caminho.

Ela nunca tentou impedi-lo de partir.

Despedia-se com uma serenidade antiga. Dizia que o amor precisava de espaço para respirar; quando permanecia preso por tempo demais, confundia afeto com posse e acabava pesando mais do que sustentava.

Ele viajava leve, mas havia coisas impossíveis de deixar para trás. Levava o timbre da voz dela diminuindo no fim das frases, o estalar da madeira da casa durante a madrugada, o cheiro do café que parecia despertar antes de todos.

Carregava também uma estranha impressão: a de que certas ausências existiam antes mesmo de acontecer.

Nunca soube explicar essa sensação. Era como sentir falta de uma conversa que ainda não havia sido dita ou reconhecer a lembrança de um lugar onde nunca estivera. O corpo seguia viagem, mas alguma parte dele parecia saber, antes de qualquer despedida, o vazio que cada caminho abriria.

Com o tempo, percebeu que fome e saudade nasciam da mesma ausência. A primeira encontrava repouso à mesa. A segunda apenas mudava de forma. Nunca desaparecia; aprendia a viver em silêncio.

Havia, no entanto, uma diferença que ele só reconheceria mais tarde: a fome antiga tinha destino certo, um prato, uma hora, um corpo que a resolvia. A dele era outra — feita de notificações que chegavam e não diziam nada, de telas que se acendiam prometendo presença e entregavam apenas luz. Aprendera, sem querer, a distinguir entre estar perto e estar disponível, e sabia que a segunda coisa, sozinha, nunca bastava.

Às vezes se pegava conversando com ela por frases curtas, incompletas, feitas pra caber num intervalo entre uma tarefa e outra. E percebia, com um desconforto que preferia não examinar, que aquilo também era uma forma de partir — uma ausência disfarçada de contato, um jeito moderno de guardar distância enquanto fingia proximidade.

Talvez fosse por isso que ele insistia nas viagens de verdade, as que exigiam o corpo inteiro fora do lugar. Pareciam mais honestas. Ao menos nelas a falta se declarava sem disfarce, sem ícone de visto, sem a ilusão de que bastava responder rápido para que a distância deixasse de existir.



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