Guimarães Rosa tem uma história chamada “Lão Dalalão (Dão-Lalalão)”, lá dentro de “Noites do Sertão” — esse livro que carrega um Brasil que não cabe em definição fácil. Eu não vou fingir que conhecia esse título antes de batizar essas lembranças. Mas, pensando bem, talvez não seja coincidência que o nome tenha me encontrado: porque o que eu vivi também foi um corpo de baile. Um sertão à moda Carapicuíba, cidade repleta de migrantes das regiões norte e nordeste do país. Também foi um som que repete, repete, repete, até virar parte de quem a gente é.
Tem um som que eu não escutava há anos e que, mesmo assim, eu reconheceria em qualquer lugar do mundo: a sanfona arrastando a primeira nota de uma quadrilha, o apito do marcador cortando o ar, e aquele grito coletivo que avisava pra todo mundo que a brincadeira ia começar de verdade. Sim, eu passei a rever e re-participar dessas festas depois que virei docente.
Há uns bons anos atrás, fiz parte do corpo de baile de uma quadrilha de festa junina. Descobri que ainda existe, com esse nome, esse jeito de fazer — e aquilo significa um tempo específico: os ensaios depois da aula, o salão (ou a quadra, ou a garagem improvisada) cheio de gente tropeçando nos próprios pés até acertar o passo, a professora de Educação Física que sabia dançar — gritando “de novo, de novo” até a coreografia entrar no corpo de um jeito que não saía mais.
Tinha o vestido rodado que a gente tinha que rodar de propósito só pra sentir o tecido subir. Tinha a chita, o chapéu de palha torto, o batom vermelho passado errado para dar os ares de “caipirismo”. Tinha o medo de errar o “balancê” na frente dos pais. E tinha, acima de tudo, a sensação de que aquilo ali — aquele monte de gente se ajeitando, rindo, se cutucando, repetindo passo — era importante. Principalmente quando haviam aplausos acompanhando os passos e depois ao final, a ovação.
A simplicidade que a gente não sabia que ia sentir falta
Em festa junina de escola, de bairro, de comunidade não tinha luxo nenhum. Era cem porcento perrengue! Bandeirinha de papel de seda que rasgava na primeira chuva. Fogueira que às vezes nem podia fazer por causa de regra nova. Quentão feito em casa, mas hoje também não pode, correio elegante mal explicado, barraca de pescaria com prêmios que valiam centavos. E mesmo assim — ou talvez exatamente por isso — aquilo enchia uma noite inteira de sentido (sim, minhas festas juninas de aluna terminavam 22h, e entrávamos às 12h pra ajeitar a escola inteira).
A simplicidade não era a falta das coisas. Era chegar e aproveitar e muito bem o tempo de presença e chamar toda a comunidade. Sobrava gente pra te ver dançar. Sobrava colegas que parava o que tava fazendo pra assistir o ensaio e até participar do bingo que valia uma Jabulani*. Sobrava aquele “vai dar tudo certo” que se ouvia antes de entrar pra dançar, mesmo sem ter ensaiado o suficiente.
Hoje eu percebo a falta disso: de uma festa que não precisava de produção gigante pra significar alguma coisa. Da festa que existia porque um grupo de gente decidiu se juntar, chamou a escola inteira pra missão, e ponto.
O calor humano que a gente nem sabia que tinha nome
Tem uma coisa que só dá pra entender depois, com distância: a gente não dançava só pra fazer bonito pro público. Dançava porque, durante semanas, aquele grupo de gente desconhecida — ou quase desconhecida da sala — virava time. A menina que pisava no seu pé sem querer no ensaio de terça virava a pessoa que te emprestava o batom no sábado da apresentação. O garoto tímido que não falava com ninguém virava o par de quadrilha que segurava sua mão igual quem já tinha feito aquilo a vida inteira. Ah, e ainda haviam as quadrilhas invertida, onde eles eram as noivas e nós os noivos!
Esse é o calor humano que eu sinto que sumiu de muita coisa hoje: o tipo de convívio que só nasce quando um grupo de gente passa tempo de verdade junto, sem tela, sem pressa, repetindo a mesma coreografia até ela dar certo. A festa junina — pelo menos a que eu vivi — não era sobre o resultado final. Era sobre as semanas de ensaio que construíram aquilo e se transformaram num sucesso discente e docente.
O que ficou e o que sumiu (ah, essa parte eu sinto falta)
Eu não escrevo isso querendo dizer que tudo era melhor antes. Seria mentira, e seria injusto com quem ainda organiza festa junina de escola com a mesma dedicação de sempre — porque tem gente fazendo isso, em algum canto do Brasil, agora mesmo em meio a Copa do Mundo.
Mas eu sinto, sim, que a vida ficou mais rápida do jeito errado. As festas hoje competem com telas, com agenda apertada, com currículo escolar que não tem mais espaço pra “perder tempo” ensaiando quadrilha depois do horário de aula. O calor humano que nascia de semanas de convívio repetido virou coisa rara, porque convívio repetido — sem propósito produtivo, sem meta, sem nada além de “vamos aprender esse passo juntos” — é cada vez mais difícil de encontrar tempo pra viver.
Eu queria que mais gente jovem pudesse sentir um pouco mais do que eu senti: o nervosismo de pisar errado na frente de todo mundo e descobrir que ninguém ia te julgar por isso. A simplicidade de uma festa que não precisava de patrocínios fora da comunidade. Falo do calor de um grupo que virava comunidade só de tanto ensaiar junto.
Lão dalalão. É esse o som que ainda ouço, de vez em quando, em algum canto da memória — o mesmo som repetido que Rosa escutou no sertão e transformou em palavra, em livro, em coisa que não esquece. Eu não escutei no sertão que Rosa descreveu. Escutei no salão de festa, no ensaio de quadrilha, no apito do marcador. Mas é o mesmo tipo de som: aquele que volta e repete até virar quem a gente é. E eu queria que mais gente tivesse a chance de criar essa lembrança também — não como nostalgia de um tempo que passou, mas como prova de que esse tipo de convívio é possível, e vale a pena lutar pra que ele não desapareça de vez.
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O mais legal de tudo é que escrevi esse post, graças a uma conversa com os guaritas da ETEC Barto sobre Festas Juninas. Ah, sobre a festa desse ano: então, esse é meu feedback apelando a volta às raizes (ou melhor: uma melhor parte delas).
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Jabulani era a bola da Copa do Mundo da Africa do Sul. Provavelmente, acabei doando uns 15 anos depois.
Onde encontro o livro?
“Noites do Sertão” pode ser encontrado em MEC Livros, gratuitamente. Caso deseja comprar um exemplar, acesse a Amazon ou outra loja.






