#51 — Precisamos salvar as fadas sensatas da docência

Sabina Simonato. Sim, estamos também a falar sobre ela.

A Copa do Mundo chegou e escancarou um problema que quem não pisa numa escola, quem não é professor, mal sentiu — só sentiu agora, quando o caldo entornou de vez: os professores disseram basta e impuseram seus limites pelas redes sociais.

Como assim? Vamos a três pontos que precisam ser ditos.

O primeiro é o calendário escolar. Aprovado ainda no ano anterior, ele já previa a Copa, as festas tradicionais, os trabalhos integradores e ainda os sábados de recuperação letiva. No meio do caminho, colegas adoeceram, se afastaram, alguns até penduraram o apagador. O calendário existia no papel; quem sustentou ele foi gente exausta.

O segundo ponto é a forma como esse calendário é (ou não é) ajustado conforme a realidade muda. E aqui uma coisa precisa ficar clara: professor não recebe hora extra. Então já dava pra prever que não haveria aula no dia em que a seleção jogasse — não por falta de compromisso, mas porque pedir mais de quem já dá conta do que pode sem reconhecimento financeiro tem limite.

O terceiro ponto envolve Casimiro, Globo e até o SBT, ainda que minimamente: a publicidade de casas de apostas. Pensa no tamanho do contrassenso de uma escola — instituição que deveria formar cidadania — ser obrigada a exibir uma propaganda de aposta porque os direitos de transmissão estão nas mãos de emissoras privadas que não cumprem de fato o papel socioeducativo que a concessão pública exige delas. Em pleno período de Copa, com criança e adolescente assistindo.

Dito isso, a Copa também é oportunidade. É tempo de pai e mãe sentarem do lado do filho, acompanharem o jogo, comentarem a jogada, e de quebra abrirem espaço pra falar sobre responsabilidade — inclusive sobre aposta, sobre consumo, sobre o que aparece na tela no intervalo. É tempo de a família se aproximar em vez de terceirizar tudo pra escola, afinal, tirando essa que vos escreve e alguns colegas, mais de 70% dos professores também são pais.

E é exatamente por isso que talvez seja hora de parar de julgar tão rápido como cada família organiza sua rotina nesse período. Tem gente que vai emendar viagem, tem gente que vai ficar em casa vendo jogo, tem gente que vai aproveitar o dia de outro jeito — e tudo bem. O problema nunca foi a família decidir o que fazer com seu tempo. O problema é um sistema que empurra pra cima da escola e do professor um peso que devia ser dividido com todo mundo: poder público, emissoras e, sim, também as famílias.

E a questão das mães e pais solos, por mais perceptível a dor de não ter uma rede de apoio, a instituição escola não tem este papel. É necessário que crie essa rede ou até que seja essa rede pra seus filhos.