#52 — Será que caímos no calabouço?

Tem uma sensação estranha em acompanhar as notícias sobre racismo no Brasil e na América Latina ultimamente: a de estar vendo um espelho quebrado, onde cada estilhaço mostra uma parte da mesma imagem, mas nenhum deles mostra o todo. Denunciamos, registramos, falamos cada vez mais sobre o assunto do que há dez anos ou até vinte anos. E, ainda assim, os números continuam subindo — como se a consciência sobre o problema andasse num trilho paralelo ao da solução, sem nunca se cruzar. E ai de falar isso para um brasileiro influenciado por certos “opinadores” que o país também tem esses casos e, pior, talvez até mais incentivado — mais até que aquele país vizinho.

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste mês, os casos de racismo registrados no país cresceram 13% entre 2024 e 2025 — passando de pouco mais de 27 mil para 30.743 ocorrências. A injúria racial subiu 9,2% no mesmo período. Santa Catarina, o Distrito Federal e o Rio Grande do Sul lideram a taxa de casos por 100 mil habitantes, todos acima da média nacional. São Paulo concentra o maior volume em números absolutos. E, pela primeira vez desde que a Lei 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, os registros de racismo superaram os de injúria — um indício de que o país talvez esteja, enfim, chamando as coisas pelo nome certo.

Os processos judiciais também bateram recorde: 8.591 novas ações por racismo em 2025, um crescimento de quase 190% desde 2020. E, no meio disso tudo, um dado que expõe o tamanho do abismo entre o discurso e a prática: apenas 14,3% dos magistrados brasileiros são negros, num país onde mais da metade da população se autodeclara preta ou parda.

O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública faz questão de lembrar: mais denúncia não significa menos racismo. Significa que as vítimas estão, aos poucos, encontrando caminhos para serem ouvidas — o que é bom — mas a violência racial continua tão presente quanto sempre esteve no cotidiano da população negra.

O calabouço que a gente não quer ver

E é aqui que entra o paradoxo que dá nome a este post. Enquanto o país tenta, com todas as dificuldades, endereçar o racismo estrutural, uma outra forma de intolerância segue crescendo quase impune: o preconceito entre as próprias regiões do Brasil. Chamam de “xenofobia interna” ou “xenofobia regional” — o desprezo por quem migra do Nordeste ou do Norte para o Sul e o Sudeste, tratado como estrangeiro dentro do próprio país. Pesquisadores da Universidade de Kentucky e de Oxford, em parceria com um sociólogo brasileiro, encontraram até modelos de inteligência artificial reproduzindo esse viés: associando o Nordeste a estereótipos de atraso e o Sul a estereótipos de “inteligência” — como se a régua da humanidade tivesse um lado certo do mapa.

É um tipo de discriminação que a gente ainda trata como brincadeira, sotaque, “jeitinho cultural” — mas que empurra pessoas para fora de vagas de emprego, de rodas de conversa, de sentimento de pertencimento no próprio país. E talvez seja exatamente isso o calabouço do título: a gente cava buracos de intolerância voltados para dentro, para o vizinho de estado, de bairro, de fila — enquanto adia, geração após geração, o enfrentamento real do racismo que atravessa tudo isso.

Não são problemas separados. São a mesma lógica, vestida de formas diferentes: a de que existe um “nós” superior e um “eles” que precisa ser hierarquizado, corrigido, mantido a distância. Enquanto não olharmos para essa lógica de frente — dentro de casa, antes de apontar para o vizinho — vamos continuar girando em círculo no fundo do próprio poço.

Para ler sobre o tema

Alguns livros que ajudam a entender essa engrenagem, cada um por um ângulo diferente:

  • Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro — um ponto de entrada direto e didático para quem quer sair da teoria e ir para a prática cotidiana.

  • Racismo Estrutural, de Silvio Almeida — para entender por que o racismo não é um desvio do sistema, mas parte da engrenagem dele.

  • Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, de Lélia Gonzalez — um clássico fundamental para pensar raça, gênero e território ao mesmo tempo.

  • Torto Arado, de Itamar Vieira Junior — ficção, mas de uma ficção que carrega dentro de si a história racial e regional do interior da Bahia como poucos ensaios conseguem.

  • Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus — o diário de uma mulher negra na periferia de São Paulo nos anos 1950, ainda doloridamente atual.

Para assistir sobre o tema

  • Bacurau (2019) — ficção científica e faroeste sertanejo que vira metáfora afiada sobre como o Brasil enxerga (ou finge não enxergar) o interior nordestino.

  • Medida Provisória (2022) — uma distopia que leva o debate sobre reparação racial às últimas consequências.

  • Que Horas Ela Volta? (2015) — classe, raça e as hierarquias invisíveis dentro de uma mesma casa.

  • 13th (2016, documentário de Ava DuVernay) — sobre o encarceramento em massa da população negra nos EUA, mas que ilumina, por comparação, muito do que se repete por aqui.

E você, o que pensa sobre esse calabouço que a gente mesmo constrói? Me conta nos comentários.


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