Desde o tempo na casa de minha avó materna, o Angu faz parte, um alimento que completa vários pratos da culinária mineira, brasileira, africana e até europeia, vou contar aqui um pouco sobre a história deste alimento, trazer uma receita e a minha relação com esse alimento.
Na infância, o angu, feito com arroz e feijão, era o prato do dia a dia, se sobrasse, o angu era frito para o café da tarde, mas também a casca que fica na panela da sobra do angu com um pouco de leite era outra opção de alimentação em casa.
No domingo o angu tinha um acompanhamento da carne moída, era uma opção onde eu e meus outros irmãos e irmãs tínhamos no almoço e na janta, às vezes com couve rasgada refogada.
Naquela época, após receber o salário do mês do meu pai, a opção era diferente, era angu, frango com quiabo, o prato daquele domingo, esse prato se repete sempre nas viagens para Minas lá em Jacuí na casa de uma tia, que fazia a comida no fogão de lenha, algo compartilhado com meus doze primos e primas.
Mas um prato com angu, que aprendi a gostar após casado, é angu na rabada, sempre que possível é feito na janta aqui na Freguesia do Ó na nossa casa atualmente. O angu aqui aparece sempre, com carne moída e um pouco de queijo. No frango com quiabo e couve, o angu completa o cardápio.
De todos esses pratos, o que acho extraordinário é o Angu no frango com quiabo, além do arroz branco, feijão tipo carioquinha e couve refogada.
O angu é um alimento de simples receita, pelo menos a versão mineira, preparado cozido com fubá, água e pouco sal, até ficar consistente, ao esfriar fica com uma capa firme quando é colocado no prato.
prato de rabada com angu e couve refogada
A etimologia da palavra angu vem da palavra àgun do idioma africano da África Ocidental, onde se referia a uma papa de inhame sem tempero, na língua iorubá temos a palavra a´ngu. A utilização do milho começou a ser usado na bacia do Congo trazida pelos portugueses.
O artista e cronista Jean-Baptiste Debret escreveu sobre o angu nas suas crônicas como uma comida de escravos no Brasil, também descreve esse angu em Minas Gerais como uma espécie de polenta grosseira, sendo o principal alimento dos escravos.
No Rio de Janeiro, por volta de 1835, existiam barracas e carrinhos que vendiam o angu, conforme relatos do jornal da época. Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro o preparado do prato era apenas com o fubá de milho e água, com consistência firme, ficou conhecido como o angu mineiro, mas poderia ter uma consistência mais cremosa quando misturado com miúdos de porco ou de vaca, nesse caso era chamado de angu à baiana.
A festa de Momo: o carnaval de Bezerros de Pernambuco é inspirado no prato de angu, uma brincadeira de familiares dos senhores de engenho no século XIX, eles saiam mascarados e mal vestidos para visitar amigos e comiam angu, sendo chamados pelas crianças de “papa-angu”.
A tradição de vendas de angu na cidade do Rio de Janeiro continuou e ficou famoso entre as décadas de 1960 e 1980, o Angu do Gomes, numa rede de carrocinhas ambulantes pertencentes a um português conhecido como “velho Gomes” que vendia apenas o angu à baiana, fazendo sucesso nas noites e madrugadas da cidade devido aos preços populares. Também aconteciam as vendas antes dos jogos de futebol em frente ao Maracanã. O filho do Velho Gomes, o João Gomes, criou um restaurante intitulado Angu do Gomes com o cardápio baseado no angu.
São várias as receitas com o angu, além de algumas inovações, como o pastel de angu, uma comida de boteco mineiro, que após feito a massa, os recheios são variados, carne moída, queijo ou frango.
O angu também aparece na literatura, como nos versos de Cora Coralina no texto do Poema do Milho. Ou no livro de Aluísio Azevedo, o cortiço que vai contar da venda do angu na cidade.
O angu apareceu até numa sentença judicial quando um juiz para explicar um fato usou a expressão “angu de caroço”.
Receitas de Angu
Angu tradicional (mineiro)
Ingredientes: Fubá e 1 litro de água
Procedimentos:
Ferver a água;
Misturar o fubá em um pouco de água fria;
Acrescentar o fubá a água fervendo, mexendo sem parar;
Diminuir o fogo quando a massa começar a grudar no fundo da panela;
Continuar mexendo até despregar e está pronto;
Colocar em uma forma molhada e deixar esfriar um pouco antes de colocar no prato.
Outras receitas são o angu cremoso e o pastel de angu. Nesses pratos, se inclui temperos, como alho e sal conforme a receita, mas isso fica para outra tarefa.









