O cansaço como fator de encerramento de uma greve

As greves costumam nascer de um diagnóstico coletivo: existe um ou mais problemas que não podem mais ser ignorados. Mas nem sempre elas terminam porque todas as reivindicações foram atendidas. Em muitos casos, o fim de uma greve também é resultado de um processo menos visível e mais humano: o desgaste físico e mental.

Após semanas de paralisação, diferentes vozes começam a disputar espaço dentro do próprio movimento. São estudantes, docentes, servidores, entidades representativas, coletivos, direções de unidades, reitorias e até grupos externos tentando influenciar os rumos da mobilização. Quando essas vozes deixam de dialogar entre si e passam a competir por protagonismo, surge uma espécie de cacofonia política: muito ruído, muitas mensagens e, por vezes, pouca convergência.

Nesse cenário, o debate sobre as pautas corre o risco de ser substituído por disputas sobre estratégias, narrativas e interpretações. O foco deixa de ser apenas o que se reivindica e passa a ser também quem fala em nome do movimento, quem define seus rumos e qual leitura deve prevalecer.

Ao mesmo tempo, existe um elemento que raramente aparece nas notas oficiais: o cansaço.

Há o cansaço físico de quem passa semanas entre assembleias, atos e reuniões. Há o cansaço emocional de sustentar conflitos permanentes. Há o cansaço acadêmico dos estudantes preocupados com calendários, avaliações e, no caso dos veteranos, a formatura. Há o cansaço profissional de docentes e servidores que precisam equilibrar a mobilização com suas responsabilidades cotidianas.

O desgaste não significa necessariamente concordância com a administração ou abandono das pautas. Muitas vezes, significa apenas que a capacidade de sustentar o conflito chegou a um limite.

É por isso que encerrar uma greve não deve ser interpretado automaticamente como derrota, assim como mantê-la indefinidamente não representa necessariamente uma vitória. Movimentos sociais vivem de correlação de forças, mas também de energia coletiva. E energia, por mais legítima que seja a causa, não é um recurso infinito.

No caso da USP, como em tantas outras mobilizações universitárias, é possível que a decisão sobre os rumos da greve tenha sido influenciada não apenas pelas respostas institucionais obtidas, mas também pela combinação entre uma crescente multiplicidade de discursos e o esgotamento natural de uma comunidade que passou semanas vivendo intensamente o conflito.

Porque, no fim das contas, uma greve não termina apenas quando uma assembleia vota. Ela termina quando uma parcela significativa de seus participantes entende que, naquele momento, continuar custa mais do que é possível sustentar.

E talvez essa seja uma das lições mais importantes dos movimentos coletivos: não basta ter razão. É preciso também preservar a capacidade de seguir lutando amanhã.


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