Minha trajetória de falhas até aqui

Nunca fui bom em bater pênalti!!! Gosto de fazer lançamentos, as vezes, acerto. Mas até hoje, jogo um futebol amador, atualmente, bem amistoso, com múltiplas idades e unisex, mas trazendo minha trajetória no universo das artes se inicia lá na infância, pois de onde eu venho, o Mar não é o mar, o mar é o céu.

Onde nasci, não existe mais, pois toda a cidade na época foi incorporada por uma indústria siderúrgica, as casas, o mercado, a escola, as ruas, tudo foi migrado para outro local, assim, digo que nasci em “Já teve”, outra curiosidade foi que o Padre que fez o casamento de minha mãe, deixou de ser há muito tempo. Essas ironias do início da minha vida sempre voltam nos meus pensamentos e criações.

Foto extraída do site Morro do Geo – Centro da Cidade Alta, não existe mais

Sou o mais velho de nove filhos, quatro irmãs e quatro irmãos, destes dois irmãos na infância faleceram, algo trágico que até hoje entristece a todos nós. Minha mãe já passou dos oitenta e continua lúcida a maioria do tempo, meu pai já se foi, após aposentado. Essa família grande de olhos claros, meu pai, olhos azuis, minha mãe, verdes, todas crianças belas, cada um teve uma trajetória cheia de encontros e desencontros, poucas imagens ficaram registradas, assim só as lembranças são registros daqueles momentos, a arte ficou nas memórias.

Na infância, tive diversos momentos de mudanças que me fizeram ser essa pessoa diferente, como qualquer outra, nasci fora de um hospital, na casa de minha avó materna, logo fui morar no Acampamento do Anjo, mas durou pouco, pois meu pai operário da companhia foi demitido após o golpe militar e fomos para a roça, na casa de meu avô paterno, durou pouco, mas lembro de andar num cesto em um carro de boi que circulava naqueles pastos, outra lembrança não registrada, mas que sempre me volta.

Ainda na infância, vamos para a capital, uma cidade que parece uma panela, onde se vê o por do sol de qualquer lugar até hoje. Foi uma época difícil para toda a família, apesar de dobrador de ferro, o salário era pouco para tantas bocas e logo outra demissão do meu pai. Nossa casa, ficava no fim de um morro, onde a vista, mostrava toda a serra em nossa volta, além de outros morros habitados ao longe, sempre era possível ver o nascer e o por do sol de cada lado da casa, sempre um quadro era desenhado na mente quando lá na serra passava o trem que iria até o oceano, levar nossas riquezas, que não eram mais o ouro, mas agora algo cinza.

Ele, meu pai vai para a maior capital do país, indicação de um amigo do primeiro emprego, as dificuldades continuam e meus dois irmãos falecem, minha mãe é internada, eu estava no primário, iniciando na escola fundamental. Já desenhava e rabiscava algumas folhas, as letras eram cursivas, com calma já escrevia de forma arredondada como a letra de minha mãe, que parecia uma obra de arte, escrever nos cadernos era algo que preenchia meus dias.

Logo, minha mãe e meus irmãos e irmãs vão embora morar de volta na minha cidade natal e eu fico. Estava no meio do período letivo, meus pais me deixaram na casa de um compadre, apesar de criança já me percebia dono do meu destino.

Nesse período, com dez anos, aproximadamente, teria que ir e voltar sozinho para a escola, algo que já fazia antes, descer o morro, subir outro pela manhã e voltar na hora do almoço, almoçar, ir jogar bola até o por do sol, banho, jantar e cama. Os desenhos e a escrita me acompanhavam, nada que tivesse valor, pelo menos para mim naquela época.

Não tenho mais nada desta época, mas lembro que rabiscava desenhos de figuras abstratas que pareciam monstros da minha cabeça, folheava revistas e jornais velhos sempre que encontrava, sem prestar muita atenção na leitura, apesar de saber, focava nas figuras, imagens, quadros, mapas, tudo que era bastante colorido.

Essa minha estadia foi curta, mas lembro de um convite para participar de uma peneira de futebol, mas antes teria que ter autorização dos pais, escrevi uma carta, mas a resposta veio somente duas semanas depois pelo compadre dele, seu pai disse que é melhor você estudar e terminou ali meu sonho de jogador. Essa carta deve ter ficado em alguma caixa com outras cartas e desenhos.

Minha mãe e meus irmãos e irmãs estavam moravam nos fundos da casa de minha vó materna, na rua Monte Santo, fui morar lá, mas logo, minha mãe foi acompanhar meu pai que estava na maior cidade do país. Foram os mais novos com ela, ficou minha irmã, meu irmão e eu para estudar e terminar a escola, ficamos na minha cidade natal, foram poucos anos, foi onde tive muitas experiências diferentes apesar de ainda criança, continuei a rabiscar e desenhar coisas irreconhecíveis, nada que fosse algo para se mostrar, nunca foi.

Eu vivia de um lado para o outro, na cidade, avó paterna, avós maternos, tios e tias por toda a cidade, estudava longe de onde estava morando, pegava ônibus sozinho para ir à escola polivalente, um modelo diferente, que poderia voltar atualmente, aulas de artes culinárias, artes industriais, artes comerciais, inglês, com as matérias normais do ciclo do ensino fundamental, tudo muito organizado. As professoras e professores tinham uma forma mais livre de ensinar, aulas em grupos, folhas grandes, lápis e canetas coloridos, régua e compasso. Meus desenhos agora tinham forma e cor, o azul e o verde sempre apareciam.

Havia muitos primos e primas por toda a cidade, com alguns passava a semana, em razão da escola e de ir lá sempre almoçar, os outros primos e primas, moravam perto da linha do trem, do estádio de futebol, do rio, da barragem e da mata fechada. Lá eu sempre ficava nos fins de semana para brincar e algumas vezes vender pastel ou picolé em dias de jogos. A bola de futebol, a bola de gude, eram os únicos brinquedos que todos compartilhavam. À noite, sentando no alpendre, contemplava as estrelas, a mata escura, o rio, o estádio de futebol e a linha do trem, tudo a nossa frente, algo que surpreenderia qualquer artista como um Van Goch ou Portinari em uma de suas obras de contemplação da Serra de Petrópolis

Candido Portinari Paisagem de Petrópolis – óleo sobre madeira

Após uns meses fomos morar na casa de meu avô e avó materna, nessa casa havia um quintal, um galinheiro e uma antiga sapataria dele, além de uma horta, limoeiros, laranjeiras e algumas bananeiras. Lembro de ir à roça com meu avô para atender pessoas vulneráveis que ele atendia através dos Vicentinos, da Sociedade São Vicente de Paula, eram caminhadas longas e divertidas por ver todos do caminho falar com me avô, ele sempre atendia.

Meu avô era um bom leitor e cartunista, lembro de um desenho dele no alpendre de uma moça de peitos grandes feito a lápis. Procurei um caderno dele com alguns desenhos para deixar aqui, mas não tive sucesso na busca. Acho que ele tivesse vindo para uma capital teria se tornado cartunista.

Nos fins de semana, a programação era diversa, ir até ao córrego no meio da mata, subir a serra até a estrada, ir até a barragem, jogar bola no estádio ou no campinho ao lado da linha de trem. Tudo isso, no meio de muitas crianças como eu, mas sempre alguns primos mais velhos arrumavam alguma briga e participávamos, momentos de correr ou jogar pedra. A janta acontecia cedo na casa de uma tia, casa cheia, eram doze no total, seis meninos, seis meninas, nessa ordem, meu tio, minha tia todos em volta da mesa, parecia a santa ceia, pois todos falavam e riam o tempo todo.

Quando a noite chegava, ficava a olhar para o céu boa parte da noite, contemplando a escuridão da mata fechada, as estrelas brilhavam muito mais que hoje, pois as luzes da cidade eram bem poucas, nos fins de semana, ainda na madrugada se ouvia o trem de carga de minério passar para ir até o porto, algo que alimentava um sonho de viajar. Toda essa paisagem sempre esteve em minha mente, trazendo na lembrança o filme que ganhou o Oscar de 1979 de Oliver Stone, O Expresso da Meia Noite, baseado numa história real de um estudante preso com haxixe na volta de uma viagem à Turquia no aeroporto para os EUA.

“O importante é nunca se desesperar”, avisa o cartaz para divulgação na França

O tempo passou rápido, foram três anos intensos, era hora de partir, sair do interior e desbravar a maior cidade do país. Houve convites para ficar, mas conhecer a maior cidade do país me pareceu uma aventura a minha altura. A viagem foi longa, de ônibus, a estrada era de pista única, cheia de curvas, morros e buracos. Levamos muitos lanches com queijo de minas, linguiça, sucos e café com leite. Íamos nós três, eu, minha irmã, meu irmão. Mas não fomos sozinhos, quem nos levava era o amigo de meu pai, que estava voltando da visita à sua família. O mesmo amigo que tempos antes havia indicado ele para trabalhar numa siderúrgica em São Paulo. A coisa mais bonita que vi quando cheguei em São Paulo foi a beleza da Rodoviária Julio Prestes, algo que me fez admirar a arquitetura da cidade naquele começo, algo bem diferente hoje, onde o lugar em volta é chamado de cracolândia.

Rodoviária de São Paulo – Julio Prestes

Cheguei na Freguesia do Ó, nossa sorte era estar no contra fluxo, como chegamos pela manhã, o ônibus da CMTC não estava cheio, malas e sacolas puderam ficar nos bancos, nós três em cima, atravessamos o rio para o outro lado, parecia ter voltado para minha terra, casas, barracos, vielas, gente para todo lado andavam apressados, descobri com o tempo que este é o jeito de andar por aqui. A casa pequena, numa rua curta, era alugada, mas ficaria pouco tempo, minha única lembrança daquele lugar, era uma avenida grande, com um canteiro central cheio de esculturas, melhor pedras grandes, ao longo de todo o caminho, parecia que foram colocadas ali para uso das pessoas nos fins de semana, sentavam ali em pares ou rodas, numa conversa que parecia não terminar, mas sempre ao por do sol, todas as pedras estavam vazias.

O ano passou rápido e fomos parar na beirada da maior cidade do país, fomos para um aglomerado de prédios que fica ao longo do trem urbano que vai do centro da cidade, passando pelo subúrbio, cidades que ficam à margem da linha do trem. Naquela época, esse parecia aqueles trens do filme do Gandhi quando ele viajava pela Índia, vagões lotados, pessoas espremidas em pé, penduradas nas portas abertas e alguns brincando no teto do mesmo, alguns ficaram pelo caminho da viagem. Uma cena que poderia aparecer em alguns filmes se retornassem naquela época, como o filme brasileiro Central do Brasil com a grande Fernanda Monte Negro do diretor Walter Salles que mostra a Estação Central da cidade do Rio de Janeiro, uma obra que retratou a dura vida dessa gente que sai do seu lugar para tentar sobreviver em outro.

Nossa mudança para o subúrbio foi uma aventura, fomos à boleia do caminhão, eu e meu irmão, o amigo do meu pai, ele e o motorista foram à cabine, não tinha muita coisa, geladeira, fogão quatro bocas, duas camas, coxão e trouxas de roupas amarradas nos lençóis. Olhava o caminho com muita curiosidade, carros, caminhões e ônibus todos num mesmo fluxo saindo da cidade a caminho da Cohab, esse era o primeiro nome daqueles aglomerados onde muita gente foi deslocada, saindo de muitos lugares diferentes. Com o tempo, descobri que nesse lugar todos vieram de longe, na maioria, nordestinos, mineiros, paranaenses, gente de todo o canto, famílias grandes, que foram morar em apartamentos de um ou dois dormitórios. Naquele tempo, o prédio parecia uma feira de tanta gente falando, sotaques diferentes, mas todos alegres, parecia uma peça do teatro Oficina do José Celso ou festa junina, pois agora, todos teriam um lar, com uma prestação no lugar do aluguel que pagariam por longos anos.

O começo naquele lugar foi de grande ebulição para todas as crianças e jovens daquele lugar, a arquitetura era de dois blocos de vinte e quatro apartamentos de 4 andares ligados por escadas, esses dois blocos ficavam do lado de outros dois e entre eles um pátio, que mais parecia uma arena, com as janelas de palco, brincadeiras e jogos com bola eram o passatempo de todos. Enquanto não chegava o início das aulas, era a arena e os campinhos de futebol nos cantos do bairro. Tudo era para nós uma festa, mas sem artistas, instrutores, nenhum trabalho social, assim as brigas também aconteciam, mas nada de armas, naquele tempo, só arranhões.

Cohab – Prédio conjugado no subúrbio

Chegou a aula, eu estava terminando o ginásio, meu último ano, naquela época existia três turnos de aula para caber todos os alunos, pela manhã, no meio do dia e no fim do dia, assim as aulas tinham por volta de três horas por turno, um core de um lado para o outro, classes cheias, uns quarenta colegas na classe, assim, se ouvia muito pouco as professoras, por sorte, ensinavam aquilo que vi anteriormente, no interior. Assim assistia a tudo como um espectador privilegiado, fazia os exercícios e ajudava alguns que me procuravam, assim ganhei a turma, virei celebridade, sem nem saber que sabia tanto, mas ao certo, eles é que não tiveram as aulas que tive. Mas ao final do semestre, eu e uma colega da turma da manhã fomos indicados os melhores alunos da escola e assim terminou o semestre.

Logo a maturidade me alcançou, minha mãe me inscreveu num curso na Cidade de Deus, um lugar a trinta minutos de ônibus, lugar onde fica o banco vermelho, eu ainda não sabia o eu iria fazer como profissão, bem antes, dizia que seria advogado para defender as pessoas, mas o curso foi de mecanografia, a arte de consertar máquinas manuais e depois elétricas. Algo bem diferente foi aquilo, éramos cinco moradores da região, outros quinze eram jovens entre quatorze e dezesseis anos de diversas regiões do país. Outra salada na minha vida de culturas diferentes, brincadeiras e sotaques. Dois instrutores cuidavam da turma, mas por todo lado, na Cidade de Deus, havia homens fardados, que chamavam de vigilantes, além de muita gente que trabalhavam no prédio amarelo, mas também tinham o prédio azul e muitas casas, mas sem moradores, todos os lugares eram trabalhadores do banco do Sr. Amador Aguiar.

Tudo começava bem cedo, acordava às seis da manhã com o programa de rádio do Zé Betio, que meu pai ouvia, notícias criminais contadas de forma teatral com muita raiva que assustava quem ouvia e vendas de muitas coisas aconteciam até eu sair para pegar o ônibus, sempre lotado, para entrar era difícil, mas mais difícil era para sair, pois eu descia antes, no meio do caminho, passava pela prefeitura da outra cidade até chegar no portão principal da Cidade de Deus, subia para o prédio amarelo, tinha que chegar antes das oito horas, mas sempre passava em frente ao campo de futebol da Cidade de Deus, lembrava do sonho de jogar futebol e pensava que um dia iria poder jogar ali, joguei, mas foi somente um treino com os colegas do curso de mecanografia no final do curso.

Vista do campo de futebol da Cidade de Deus em Osasco do banco Vermelho

Não disse, mas o curso era o dia todo, de segunda a sexta-feira, até as dezessete horas, com almoço no refeitório do banco vermelho, um lugar bem grande de muitas mesas, que mais parecia um salão de festas, mas todos tinham se servir e depois devolver as bandejas, tudo sincronizado, várias filas, todos em ordem, menos nosso grupo, que brincavam o tempo todo, mas sempre tomávamos as broncas dos instrutores ou dos vigilantes que nos acompanhavam por onde íamos, ninguém sabia o risco que estava correndo, perder aquele curso seria muito ruim para qualquer um de nós.

Voltar para casa, no fim do dia, outra luta, saia correndo para chegar a tempo de passar em casa para a janta, ir direto para a escola à noite era muito ruim, sempre chegava um pouco atrasado, mas eu não era somente eu. A maioria, ou quase todos eram bem mais velhos que eu, a classe era cheia, quando chegava cedo, sentava no meio da classe, se não sobrava o fundo da classe, onde sempre havia uma cantoria que nunca conseguia entender. Só me notaram nas provas, pois que terminava poderia ir embora, fui duas vezes mais cedo para casa. Tudo era muito básico, até o tema da redação que foi contar uma viagem. Mas ao saberem as minhas notas de matemática e português, fui convidado a ajudar a todos, mas sem a concordância dos professores, minhas provas circulavam a classe como uma obra de arte a ser copiada

Terminei o ginásio, meu curso de mecanografia, terminou, fui contratado para trabalhar na Oficina de Máquinas, um galpão que era uma oficina gigante, todos de capa cinza, consertando de tudo, máquinas de escrever e calcular manuais, autenticadoras de caixa, entre muitas outras, motores elétricos, ventiladores e grampeadores, um monte de artistas do conserto, reforma de máquinas que chegavam sujas e enferrujadas e saíam limpas e brilhantes, até um senhor relojoeiro e também chaveiro me enviou a arte de abrir fechaduras.

O período seguinte foi puxado, trabalhava durante a semana, meio pai, se aposentou, mas a renda não era suficiente para alimentar a família e os convidados, primos que chegavam para buscar oportunidades na cidade grande durante aquela época, então no domingo, entrega jornal de bairro na zona sul da capital, acordávamos de madrugada, às vezes íamos até a gráfica no centro da cidade e pegávamos carona na kombi que entregava os jornais nos pontos definidos pela distribuidora, eu o acompanhava, era minha parte da ajuda, como boa parte do meu salário para compor as condições de sobrevivência de todos. Aquele jornal foi minha leitura durante todo o período, temas políticos, econômicos, crônicas, tirinhas e temas de cultura, as peças de teatro e filmes em cartaz, nessa época, tudo ficava somente nas leituras das chamadas ou algumas críticas do que acontecia na maior cidade do país.

Não contei que no período anterior, não consegui evoluir no ensino médio, iniciava o ano, com foco em estudar, mas o cansaço do trabalho, agora bem mais puxado, até chegava ir para a escola, mas ficava no corredor, com muitos outros colegas, conversando ou cantando, sempre aparecia um violão, muita paquera me fez esquecer as aulas, as poesias de Vinicius de Moraes eram minha leitura. Nos fins de semana, bailes nas arenas entre os prédios da Cohab e as domingueiras no Zimbábue ou no Speed 2001, dois salões de baile no centro do subúrbio, com funks e baladas nacionais de Tim Maia, Jorge Bem e Mutantes.

Chegou o tempo do alistamento militar, foi na cidade onde trabalhava, ao lado do quartel, numa fila imensa, todos meninos jovens, muitos de onde eu vinha, tínhamos que ficar de pé, sempre que um agachava ou sentava no chão, um soldado chegava e mandava levantar. Na minha vez, mediu altura, peso, perguntou se tinha alguma enfermidade, disse não, o médico disse apto e mandaram eu por a roupa e sair, na sala tinha uns vinte, saímos todos juntos como uma trupe, outros vinte entraram, então tinha que ser rápido, na saída na sala principal tinha um quadro de um desenhista do exército local, de nome Valdemar FRANCISCHETTI que indicava o valor e a aventura brasileira no mundo da guerra.

A AVIAÇÃO MILITAR NA REVOLUÇÃO DE 1932

Fui convocado para um quartel em outra cidade, mas perto de casa, umas quatro estações de trem urbano de distância, lá se montava alguns equipamentos para o exército, fiquei somente dez dias, de muitas histórias, mas fui dispensado por ser arrimo de família, fomos definidos por um sargento como renegados pelo exército, para nos ficou como piada, mas o troco foi dado num jogo de futebol no quartel no último dia, montamos um time de renegados, numa partida sem muito juiz, ganhamos o jogo e deixamos os soldados na raiva. Aplicamos uma boa peça ao sargento, o time era de colegas dos campinhos da Cohab. A arte ali se resumia nas armas, muitas, mas não tive acesso a nenhuma no tempo que fiquei lá e meu receio era grande de acontecer algo ruim naquele ambiente.

Volto ao trabalho na Cidade de Deus, agora com a intenção de fazer o ensino médio, busquei encontrar uma escola particular e um curso técnico para ter uma profissão mais especializada, foi eletrônica, comecei estudar à noite, saindo do banco até a Escola que ficava em cima de uma grande loja na avenida daquele subúrbio. Naquele momento me trocaram de função, passei a ser técnico de manutenção de equipamentos de microfilmagem, mas não era nada relacionado com cinema, mas com filmagem de documentos e cheques dos bancos. Mas aquela mudança tinha uma intenção do banco, fui transferido para atuar no turno da madrugada, das vinte e três até às sete da manhã. O prédio da documentação, como era chamado tinha alguns quadros no andar de cima, lembro de um quadro de um grande campo de café e uma casa grande ao fundo, mas não achei para mostrar.

Terminei o terceiro ano do ensino médio, para concluir a eletrônica, deveria fazer mais um ano, mais prático, mas resolvi fazer um cursinho vestibular para prestar a USP, faculdade pública de maior prestígio do país. Me inscrevi em Sociologia, primeira opção e Filosofia como segunda opção, a primeira com aulas pela manhã, a segunda opção com aulas no vespertino. Consegui entrar na segunda opção, nesse momento havia cansado do trabalho de madrugada, pedi demissão e fui para o banco amarelo, bem distante de casa, na zona sul da capital, dois ônibus de mais de quarenta minutos cada trajeto. Nesse emprego já não era mais de carteira assinada, mecânico autônomo, entrava bem cedo, as sete da manhã até as quatorze horas, corria para a USP, pois as quinze horas se iniciava as aulas. Tudo novo, muita gente jovem e outros bem mais velhos, estavam fazendo a segunda graduação, gente muito diferente, o aprendizado da cultura foi grande, mas nunca terminei uma matéria, livros em espanhol, inglês, alemão, os textos traduzidos para português eram desprezados pelas professoras e professores, o livro Discurso da Servidão Voluntária e O Método de Descartes foram duas leituras que me perseguiram durante o curso.

Mas o que mais me encantou na USP, era minhas visitas a ECA, um lugar diferente, aulas abertas de História da Arte, entrei em algumas salas de aula de artes, depois que terminava as aulas na filosofia, sem entender muito, ouvia com atenção as explicações e algumas atuações de alunos e alunas, foi meu início no mundo mais sofisticado da Arte.