Quem dera a questão se resumisse a separar autor da obra. Sim, pessoas que cometem atrocidades são capazes de criar coisas bonitas. – Aline Valek
Esse questionamento atemporal, citado por Aline Valek em Uma Palavra, chega em um momento oportuno. Muitas vezes nos maravilhamos com obras literárias, musicais ou cinematográficas, mas, ao conhecermos a biografia ou as histórias recentes de seus criadores, surge a dúvida: vale a pena consumir essas obras?
Seja Neil Gaiman, ou um editor renomado, ou o Charlie Chaplin… ou até mesmo a Rachel de Queiroz.
Espera aí, Rachel de Queiroz?
Exatamente, eu assisti recentemente ao Roda Viva, onde o autor Caio Fernando Abreu a confrontou pela ligação que esta autora tinha com Castelo Branco, o primeiro dos ditadores militares no Brasil, entre 1964 e 1985. Detalhe: o debate entre eles foi em 1991, nem era nascida.
Abro aspas à Isabel Lustosa, que a entrevistou em 1993 e concedeu essa história ao site do IMS:
O ódio a Getúlio Vargas e a seus herdeiros, Jango, Juscelino e Brizola aparece tanto na entrevista ao Roda Vida, quanto na que me deu. (…) Ao que parece, Rachel de Queiroz estava entre aqueles tantos que acreditavam que através de um golpe de Estado se tiraria do poder um governo democraticamente eleito para pôr em seu lugar outro governo democraticamente eleito, só que agora governando do jeito que ela e seus amigos gostariam. Um erro de cálculo parecido com o que assistimos hoje, quando setores de uma classe média educada promovem manifestações clamando por um golpe militar para estabelecer um governo democrático, em seguida. Desde que o governo eleito não seja o do Partido dos Trabalhadores. – Isabel Lustosa, 2014
Sabemos que Getúlio não era lá dos melhores presidentes que o Brasil teve, aliás, se formos ver as atrocidades cometidas e retratadas no filme “Olga”, o denominado “pai dos pobres” tinha sangue em suas mãos. Mas jamais será justificável o papel da Rachel de Queiroz neste episódio, à qual estamos testemunhando filmes e retratos de suas consequências, como “Ainda Estou Aqui” – o mais recente destes retratos.
Esta semana, foi retificada as certidões de óbitos de centenas de vítimas – algumas delas, combatentes – deste período sombrio. Um deles foi do então deputado federal Rubens Paiva, pai do autor Marcelo Rubens Paiva. Na semana em que completam-se 44 anos da morte, cuja data é entre 20 e 22 de janeiro, no dia 23, o filme que retratou a sua vida e trajetória chega à premiação máxima do cinema internacional: a primeira indicação da história do Oscar de Melhor Filme à uma produção brasileira.
E histórias como esta, meus caros, estas não podem e sequer serão esquecidas.










