Espaço instagramável? Prefiro espaço humanizável

Antes da leitura: este post foi inspirado no seguinte comentário feito à este post abaixo, da . Vale a leitura.


A tarde caía preguiçosa sobre a cidade, tingindo o céu de tons alaranjados. Eu, munida da minha câmera analógica, vagueava sem rumo, buscando um vislumbre de beleza autêntica em meio à selva de concreto. De repente, um clarão rosa neon me cegou. Era o “Espaço Insta”, um templo donde a busca pela selfie perfeita reinava suprema.

Na fila, um exército de jovens armados com celulares, cada um ansioso por sua vez no balanço florido, o astro principal do cenário. Pose ensaiada, sorriso plastificado, o clique e… pronto! Mais um tijolo na muralha de likes, mais um degrau na escada da fama virtual.

Observei a cena com um certo fascínio, mas acrescentado de repulsa. A fotografia, outrora um portal para a alma, reduzida a um decalque de poses e cenários pré-fabricados. A espontaneidade, a emoção crua, a beleza imperfeita… tudo diluído na fórmula do sucesso instantâneo.

Foi-se o tempo onde tirava as fotos por pura e completa espontaneidade naquela rede, tanto que mal consigo postar algo ali. Lembrei-me dos tempos em que a fotografia era uma aventura, uma caça ao tesouro por momentos únicos. A ansiedade da revelação, a surpresa ao ver as fotos impressas no álbum, a emoção de eternizar instantes irrepetíveis. A magia do acaso, a beleza do imperfeito, a rebeldia da autenticidade.

Enquanto a multidão se acotovelava pelo clique perfeito, eu me afastei, buscando refúgio em um beco esquecido. Ali, entre paredes descascadas e grafites vibrantes, encontrei a beleza que procurava. A luz que encontrei ali não era o brilho artificial e calculado do neon, mas sim a luz crua e vibrante do sol poente, filtrada pelas sombras alongadas dos prédios. Ela dançava nas texturas do grafite, revelando cores e formas inesperadas, como se cada pincelada contasse uma história.

Senti um arrepio, uma conexão com a cidade que ia além da superfície instagramável. Ali, no coração da selva de concreto, pulsava a vida real, com suas imperfeições e beleza bruta. A fotografia analógica, em minhas mãos, era a ferramenta perfeita para capturar essa essência, sem filtros ou retoques.

Enquanto clicava, imaginava as fotos reveladas, o grão da película realçando as nuances da luz e da sombra, a emoção do momento impressa em papel. Era uma rebelião silenciosa contra a ditadura dos likes e do fácil, um manifesto pela autenticidade e pela beleza da imperfeição.

Deixei o beco com a alma leve, a câmera cheia de memórias e a certeza de que a magia da fotografia ainda existe, escondida nos cantos menos óbvios da cidade. A luz que encontrei ali me lembrou que a beleza não precisa de cenários prontos ou poses ensaiadas, ela está em cada detalhe, em cada olhar, em cada instante capturado com o coração.

E enquanto o “Espaço Insta” continuava a atrair multidões em busca da fama efêmera, eu seguia meu caminho, guiada pela luz da minha própria verdade, pela magia da fotografia que me conecta com a alma do mundo.

Afinal, a verdadeira beleza não se encontra em likes ou seguidores, mas sim na capacidade de ver além da superfície, de capturar a essência da vida em sua forma mais autêntica e visceral.

Ver “Sampaulices”

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