O consumo musical mudou — e, com ele, mudou também a forma como conhecemos artistas, como eles ganham dinheiro e até como nos conectamos com a música. Talvez seja por isso que, ao olhar para o line-up de um festival hoje, a sensação seja menos de reconhecimento e mais de descoberta — às vezes até de estranhamento.
Houve um tempo em que a música era uma experiência compartilhada. O rádio, a televisão e as lojas físicas funcionavam como grandes mediadores culturais. Se um artista estava em alta, era praticamente impossível não saber quem ele era. Nomes como Madonna ou Michael Jackson atravessavam gerações e fronteiras. No Brasil, o mesmo acontecia com Ivete Sangalo ou Legião Urbana.
Hoje, essa lógica foi substituída por um consumo fragmentado. Plataformas como Spotify, YouTube e TikTok reorganizaram completamente o mercado. Cada pessoa vive dentro de um ecossistema próprio, moldado por algoritmos que aprendem seus hábitos. Dois ouvintes podem consumir música diariamente — e ainda assim não compartilhar praticamente nenhum artista.
Essa transformação não é apenas cultural, mas também econômica.
Relatórios de entidades como a IFPI mostram que o streaming domina a receita global da música, com 69% de toda a receita global da música gravada, gerando US$ 26,6 bi. Mas essa centralização vem com um custo: a remuneração por reprodução é extremamente baixa. Para muitos artistas, isso significa depender de milhões — às vezes bilhões — de plays para obter uma renda significativa.
Diante disso, surgem estratégias alternativas. Artistas como Taylor Swift e Salvador Sobral já retiraram suas músicas do Spotify em determinados momentos, enquanto Jay-Z apostou no Tidal com a proposta de remuneração mais justa. A distribuição deixou de ser apenas técnica — tornou-se uma negociação constante, tal como os streamings relacionados ao cinema.
Ao mesmo tempo, o desaparecimento das lojas físicas também alterou profundamente a experiência musical. Comprar um CD ou vinil já foi um ritual de descoberta compartilhada ali, fisicamente numa das Lojas Americanas no centro de Osasco, por exemplo. Hoje, além de raras e nichadas, essas lojas enfrentam custos elevados, especialmente pela dependência de importação. O preço de discos físicos — muitas vezes atrelado ao dólar e ao frete internacional — torna o acesso limitado e reduz a circulação cultural fora do digital.
E no lugar do vendedor de loja ou do radialista, entrou o algoritmo.
A substituição do DJ por inteligência artificial nas plataformas é um dos movimentos mais simbólicos dessa transformação. O DJ não apenas tocava músicas — ele criava pontes, apresentava contextos, arriscava. Já a IA prioriza retenção: entrega o que você provavelmente vai gostar, baseado em padrões.
Isso tem consequências importantes.
A primeira é o aprofundamento das bolhas musicais. Você ouve mais do mesmo — com pequenas variações. A descoberta existe, mas raramente rompe com o seu padrão.
A segunda é o impacto nos artistas emergentes. Antes, tocar na rádio podia lançar uma carreira. Hoje, entrar em playlists algorítmicas é o novo objetivo — mas esse processo é menos transparente e altamente competitivo.
A terceira é a despersonalização da experiência. O DJ era uma voz, uma presença. O algoritmo é um sistema invisível. A música deixa de ser mediada por pessoas e passa a ser organizada por dados.
Nesse cenário, festivais como Lollapalooza e Rock in Rio assumem um papel curioso: tornam-se pontos de encontro entre bolhas. Para alguns, o line-up é incrível; para outros, irreconhecível. Não porque os artistas são pequenos — mas porque são grandes em circuitos específicos.
E há ainda uma camada adicional: o custo de viver essa experiência.
Ir a um festival hoje é caro — e não apenas pelo ingresso. Muitos desses eventos seguem uma lógica de precificação internacionalizada. Cachês de artistas, estruturas, patrocínios e até produtos dentro do evento são, direta ou indiretamente, influenciados pelo dólar. Para o público brasileiro, isso se traduz em ingressos altos, além de gastos com transporte, alimentação e hospedagem.
Ou seja: enquanto o acesso digital à música nunca foi tão amplo, o acesso à experiência ao vivo se torna cada vez mais restrito.
No fim, o que mudou não foi só o consumo musical — foi a própria ideia de cultura compartilhada.
A gente não conhece menos artistas. Na verdade, talvez conheça até mais. Mas conhece de forma dispersa, fragmentada, individual pra cada um de nós. Perdemos um pouco da experiência coletiva e ganhamos uma experiência personalizada — mediada por algoritmos, contratos e mercados globais.
E talvez seja por isso que, diante de um festival lotado, com milhares de pessoas cantando músicas que você nunca ouviu, surge aquela sensação estranha:
não de estar por fora da música —
mas de estar fora da mesma música que todo mundo ao seu lado.
E que saudades da EmeTeVê.
Este post foi baseado na matéria de Whisplash.









