#49 – IhhhhhA

Tem uma pergunta que me acompanha há algum tempo.

Não me refiro ao medo das máquinas dominarem o mundo. Esse rende bons filmes, como aquele do Spielberg ou aquele outro do Will Smith, mas explica pouco da nossa realidade.

Direto Do Cantão é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.

Falo do medo cotidiano. O medo de não conseguir entregar tudo que nos comprometemos. De não corresponder às expectativas. Ou até mesmo o medo de perceber que o dia continua tendo apenas 24 horas, enquanto as demandas parecem crescer sem qualquer limite alcançável.

Imagine alguém que acorda cedo, mais precisamente 4h, chega ao trabalho às 6h15 após atravessar a cidade, almoça no serviço ao 12h, tem que atravessar a cidade de novo pra estudar à noite, precisa cuidar da casa, responder mensagens da família, tentar manter uma vida social minimamente saudável e ainda encontrar algum tempo para descansar. Em algum momento, surge a IA pra essa pessoa.

Ela resume textos. Organiza ideias. Corrige erros. Ajuda a pesquisar. Sugere caminhos. Nem sempre ela será 100% correta, porque o ser humano também não é 100% correto. Primeiro princípio – anotem com a caneta rosa choque: sempre tem um ser humano atrás da IA.

Aí, voltando ao caso da pessoa, aquilo que parecia impossível se torna apenas difícil. Daí, seja a questão mais interessante.

A IA está resolvendo um problema ou está mascarando outro?

Porque, de fato, existe uma diferença entre aumentar a produtividade e tornar suportável uma rotina que já ultrapassou seus próprios limites tangíveis. Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley acompanhou funcionários de uma empresa de tecnologia e concluiu que, mesmo sem metas maiores impostas pela empresa, os profissionais passaram a trabalhar mais por iniciativa própria — e o efeito acumulado foi cansaço, dificuldade de se desconectar e maior risco de burnout. [1]

Quando alguém usa uma calculadora, para fazer contas simples, dificilmente surge uma discussão filosófica. Quando alguém usa uma IA para organizar parte da sua vida, a reação costuma ser bem polarizada. Alguns enxergam preguiça, ineficiência, desinvestimento. Outros enxergam evolução, produtividade, enriquecimento.

Só que eu vejo tudo isso como sintoma.

A popularização dos aplicativos de IA revela uma sociedade em que as pessoas estão cada vez mais pressionadas a produzir mais, estudar mais, trabalhar mais, aprender mais e responder mais rápido. Dados do Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026 mostram que 86% dos profissionais brasileiros relataram sintomas de burnout no último ano. [2]

Nesse contexto, a inteligência artificial não aparece apenas como a grande inovação tecnológica. Ela aparece como mecanismo de sobrevivência ao mundo técnico-corporativo.

E lembra da frase que falei anteriormente: Toda essa inteligência foi construída a partir do trabalho humano. Desde o algoritmo da pesquisa até o trabalho a qual foi estudado para que a pessoa possa usar como fonte de referencia na sua apresentação. Sem falar a parte artística, que já tem outra questão complementar.

A discussão sobre direitos autorais na IA não é um detalhe técnico. É uma disputa sobre quem gera valor e quem captura esse valor. No Brasil, o PL 2.338/23 — já aprovado pelo Senado e em debate na Câmara — prevê que operadores de IA generativa mantenham registro do material usado no treinamento e remunerem autores e artistas de forma inalienável e irrenunciável. [3]

É basicamente a mesma questão vista no streaming x músicos.

Durante anos, as plataformas de streaming prometeram democratizar o acesso à música. O acesso realmente se democratizou. A remuneração, nem tanto. O Spotify, maior plataforma do mundo, paga entre US$ 0,003 e US$ 0,005 por reprodução — e a partir de 2024 passou a remunerar apenas músicas com mais de mil streams anuais, o que impacta diretamente artistas independentes e de menor alcance. [4]

Enquanto milhões de pessoas, até as mais céticas sobre o uso da IA, escutam suas playlists diariamente no YouTube, por exemplo, artistas continuam questionando quanto recebem por reprodução e como a maior parte da receita permanece concentrada em grandes intermediários do mercado.

No cenário da IA, a pergunta retorna em outra forma.

Quem será remunerado pelo conhecimento que alimenta esses sistemas? Quem será reconhecido como os autores? Quem será substituído pelos algoritmos (ou não)? E quem continuará produzindo o conteúdo que mantém tudo funcionando?

Não acredito que a resposta seja abandonar a tecnologia ou a internet. E também não acredito que devamos aceitar qualquer inovação sem questionar todos seus impactos.

Agora, a melhor pergunta não é se a IA vai nos tornar mais produtivos e sim por que precisamos ser tão produtivos o tempo todo.

Porque, no fundo, o maior risco não é que a Inteligência Artificial passe a pensar por nós. É que a gente se acostume a não perceber o quanto está cansado, frustrado, sentido a terra arrasada nos engolir.

IhhhA.

Vale a leitura

Publiquei ontem, em meu site, uma reflexão complementar que se chama MigrAção. E daí gostaria de perguntar à vocês do outro lado da tela duas questões:

  1. “será que estamos com medo de ficarmos parados ou inertes frente à IA?”

  2. “o que mais vale a pena fazer com as próprias mãos, em casa ou no trabalho ou no lazer?”

Não existe respostas certas à questão, só reflexões mesmo.

Referencias

[1] RANGANATHAN, Aruna; YE, Xingqi Maggie. AI at Work Is Making Us Tired — Even When It Helps. Harvard Business Review, fev. 2026. Disponível em: fenati.org.br/uso-de-ia-intensifica-ritmo-no-trabalho

[2] WELLHUB. Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026. Pesquisa realizada com cinco mil trabalhadores em dez países.

[3] CÂMARA DOS DEPUTADOS. Especialistas divergem sobre propriedade intelectual no uso de IA generativa. Portal da Câmara dos Deputados, 2025. Disponível em: camara.leg.br

[4] CADERNO POP. Streaming vale a pena? Quanto o Spotify realmente paga aos artistas. 2026. Disponível em: cadernopop.com.br

Direto Do Cantão é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.