Vale Quase Tudo

A sugestão para esta crônica é da Mãe de Zé, se inscrevam e vamos falar um pouco mais sobre a nossa farofa pop favorita: futebol e novela!


Domingo à tarde. No Brasil, isso significa duas certezas: tem futebol e tem novela esperando para roubar a audiência logo no dia seguinte ao apito final.

Lá em casa, o jogo mal tinha começado e minha avó já decretava da cozinha:

— Se esse time perder, nem quero ver o capítulo de Garota do Momento!

Sim, ela é dessas. Assiste à novela como quem revisita a própria juventude, com um brilho nos olhos que nem a reprise em 4K da GloboPlay consegue apagar. E Garota do Momento, ah, essa novela… está no ar agora, entre 2024 e 2025, mas se passa nas décadas de 50 e 60, um Brasil de topetes, vestidos rodados e amores proibidos embalados ao som da Rádio Nacional.

Enquanto isso, no estádio — agora moderno, com arquibancadas instagramáveis e cobertura Wi-Fi — a bola rolava como um capítulo de Vale Tudo: cheio de reviravoltas, vilões carismáticos e mocinhos que vacilavam na hora H.

Nosso camisa 10 parecia o Marco Aurélio da novela das antigas: dono do mundo, da bola e do próprio ego. Driblava até a sombra, mas entregava na hora de finalizar. O juiz, uma espécie de Odete Roitman com apito, dava pênaltis que nem a Heleninha, mesmo sóbria, conseguiria aceitar sem gritar.

Aos 30 do segundo tempo, o técnico colocou o novo reforço. Jovem, bonito, sorriso de comercial. A torcida vibrou como se ele fosse a própria Garota do Momento em versão masculina: puro charme, pouco conteúdo. Mas bastou um passe de trivela e um gol de placa pra gente esquecer a coerência e gritar “Craqueeee!”. Porque aqui, no país do improviso, carisma é mais decisivo que tática. Ética? Nem sempre.

E lá em casa, minha avó vibrava tanto com o atacante quanto com a mocinha da novela enfrentando o patrão machista no capítulo daquela noite.

— Tá vendo? — ela disse, com olhos marejados — mulher já jogava no ataque naquela época. Só não era com chuteira.

O jogo terminou empatado. Um gol anulado pelo VAR, um pênalti não marcado e a velha promessa de “na volta a gente resolve”. Saímos do estádio — físico ou mental — como quem sai de um capítulo mal resolvido: cheios de dúvidas, teorias e esperança.

Na calçada, um senhor resmungava:

— Esse futebol tá igual à novela: ninguém sabe mais quem é mocinho, quem é vilão.

E ele tinha razão. A diferença é que na novela a gente ainda torce pela redenção. No futebol? A gente continua indo ao estádio — como quem assiste ao próximo capítulo. Entre o VAR e a brilhantina, entre o escanteio mal batido e o beijo proibido, seguimos vivendo o grande drama nacional: torcer, sofrer, esperar e, no fundo, acreditar.

Porque no fim das contas, no Brasil, todo domingo é uma novela. Com ou sem final feliz.

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