A política no Rio de Janeiro é algo para ser estudado

Vou fazer aqui uma análise histórica e política do Rio de Janeiro e o futuro das eleições, com o retorno das eleições diretas para governador em 1982 e a consolidação da Nova República, os chefes do Poder Executivo fluminense e seus mandatos foram:

Sem fazer nenhum juízo de valor, aqueles governadores que não se envolveram em problemas jurídicos foram os de esquerda ou progressistas, apesar da direita ser a mais votada atualmente.

Além de olhar os governantes, vamos olhar também a trajetória política dos outros políticos, os legisladores do Rio de Janeiro.

A trajetória da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) desde a redemocratização (1982) divide-se em quatro grandes ciclos político-ideológicos, marcados pela transição do trabalhismo brizolista para a hegemonia do centro fisiológico e, mais recentemente, para a polarização com forte predomínio conservador.

Décadas de 1980 e 1990: Brizolismo, Esquerda Trabalhista e o “Chaguismo”

  • Esquerda e Progressistas: O PDT (liderado por Leonel Brizola) foi a principal força partidária da Casa nos anos 1980 e início dos anos 1990, com forte discurso nacionalista, trabalhista e de direitos humanos, acompanhado por bancadas combativas, porém minoritárias, de PT e PCdoB.

  • Centro e Direita Tradicional: O PMDB herdou a máquina do “chaguismo” (clientelismo tradicional) e dividia o plenário com a direita conservadora remanescente do regime militar (PDS e PFL).

  • Perfil: A Assembleia era dividida entre uma bancada progressista/trabalhista numericamente expressiva e blocos regionalistas/clientelistas do interior e da Baixada Fluminense.

Anos 2000 a meados de 2010: Hegemonia do “Centrão Fluminense” (PMDB e Garotismo)

  • Centro Fisiológico Dominante: Com a ascensão do Garotismo e, em seguida, a era Sérgio Cabral/Pezão, o PMDB tornou-se a maior bancada da ALERJ, articulando uma ampla base parlamentar com partidos de centro e centro-direita (PP, PR, PTB, PSC). A dinâmica política passou a ser pautada mais pelo governismo e pragmatismo do que por alinhamentos ideológicos rígidos.

  • Esquerda Progressista: O PT integrou a base aliada em grande parte desse período, enquanto legendas como PSOL e alas do PSB/PDT assumiram o papel de oposição programática, pautando direitos humanos, transparência e controle social.

  • Conservadores: Começaram a ganhar tração via bancadas ligadas a setores da segurança pública (policiais e delegados) e lideranças religiosas evangélicas.

2018 a 2026: Onda Conservadora, Bolsonarismo e Polarização

  • Direita e Conservadorismo Hegemônicos: As eleições de 2018 (onda PSL) e de 2022 (consolidação do PL, União Brasil e Republicanos) alteraram drasticamente o perfil da Casa. O bloco de direita e centro-direita formou a maioria absoluta das 70 cadeiras, com forte agenda focada em segurança pública punitivista, pautas morais, armamento e defesa do livre mercado.

  • Esquerda e Progressistas: Reduziram-se em proporção, mantendo núcleos consistentes liderados por federações do PT/PCdoB e do PSOL. Atuam predominantemente na oposição aos governos estaduais recentes (Witzel e Castro), focando em combate às desigualdades, educação e direitos humanos.

Desde a redemocratização, a política do Estado do Rio de Janeiro registrou um volume sem precedentes no país de governadores, presidentes da Assembleia Legislativa e parlamentares atingidos por prisões, condenações, cassações ou processos criminais por atos cometidos no exercício do cargo ou em decorrência de mandatos.

Governadores

  • Sérgio Cabral Filho (PMDB): Preso preventivamente em 2016 na Operação Calicute (desdobramento da Lava Jato) por chefiar um esquema de propinas e lavagem de dinheiro em contratos de obras públicas (Maracanã, Arco Metropolitano, PAC das Favelas). Acumulou dezenas de condenações na Justiça Federal.

  • Luiz Fernando Pezão (PMDB): Preso em novembro de 2018 na Operação Boca de Lobo enquanto exercia o mandato de governador, acusado de receber mesadas de propina da organização criminosa de Cabral.

  • Anthony Garotinho (PDT / PMDB / PR): Alvo de diversas prisões cautelares e condenações em primeira/segunda instâncias por crimes eleitorais (compra de votos via programas sociais), formação de quadrilha e desvios de verbas.

  • Rosinha Garotinho (PSB / PMDB / PR): Foi presa cautelarmente em investigações sobre caixa 2, extorsão a empresários e fraudes em contratos públicos firmados em seu período como governadora e prefeita de Campos.

  • Moreira Franco (PMDB): Preso preventivamente em 2019 no âmbito da Operação Descontaminação (Lava Jato), sob a acusação de recebimento de vantagens indevidas em contratos públicos.

  • Wilson Witzel (PSC): Afastado cautelarmente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em agosto de 2020 na Operação Tris in Idem e submetido a julgamento por Tribunal Misto, sofrendo impeachment definitivo em 2021 por crimes de responsabilidade e corrupção em contratos emergenciais de saúde durante a pandemia de COVID-19.

  • Cláudio Castro (PL): Tornou-se réu/indiciado e alvo de operações da Polícia Federal e do STJ (como a Operação Sem Refino) por suspeitas de corrupção e desvios na Fundação Leão XIII e no governo estadual.

Presidentes da ALERJ e Cúpula do Legislativo Fluminense

A cúpula da Assembleia Legislativa sofreu intervenções diretas da Justiça Federal e da Polícia Federal, sobretudo a partir das operações Cadeia Velha (2017) e Furna da Onça (2018), que investigaram o chamado “mensalinho da Alerj”:

  • Jorge Picciani (MDB): Ex-presidente da ALERJ por vários mandatos; foi preso preventivamente em 2017 por recebimento de propinas de federações de transporte (Fetranspor) e empreiteiras em troca de favores legislativos.

  • Paulo Melo (MDB): Também ex-presidente da ALERJ, foi preso em 2017 e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema de propinas do Legislativo.

  • Edson Albertassi (MDB): Ex-líder de governo na ALERJ; preso em 2017 no mesmo esquema ao tentar articular nomeação para o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) com o objetivo de obter foro privilegiado.

Outros Deputados Estaduais e Federais Notáveis

  • Deputados da “Furna da Onça” (2018): Prisão e processos contra diversos deputados por receberem mesadas para votar a favor do Executivo, incluindo André Corrêa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Luiz Martins (PDT), Marcus Vinícius Neskau (PTB), Marcos Abrahão (Avante) e Coronel Jairo (MDB).

  • Flordelis (PSD): Teve o mandato de deputada federal cassado em 2021 e foi condenada a mais de 50 anos de prisão pelo assassinato de seu marido, o pastor Anderson do Carmo.

  • Chiquinho Brazão (sem partido): Deputado federal preso preventivamente pela Polícia Federal em 2024, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

  • Roberto Jefferson (PTB): Ex-deputado federal fluminense, réu e condenado no escândalo do Mensalão, com novas prisões decretadas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021/2022 por atos contra as instituições democráticas.

Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ)

Em março de 2017, a Operação Quinto do Ouro levou à prisão temporária e ao afastamento de 5 dos 6 conselheiros do TCE-RJ (incluindo Aloysio Neves, Domingos Brazão, José Gomes Graciosa, Marco Antônio Alencar e José Maurício Nolasco), acusados de integrar uma rede de cobrança de propinas em contratos públicos estaduais que deveriam fiscalizar.

Os políticos fluminenses envolvidos nos escândalos e processos judiciais não pertencem a um único espectro doutrinário, mas distribuem-se em cinco grupos de atuação e perfis político-ideológicos principais:

1. Centro Fisiológico e “Governismo Pragmático” (MDB e Centrão)

  • Políticos: Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Jorge Picciani, Paulo Melo, Edson Albertassi, Moreira Franco e diversos conselheiros do TCE-RJ.

  • Perfil Ideológico: Centro a centro-direita pragmático, sem compromissos ideológicos rígidos.

  • Bases de Atuação:

    • Articulação institucional e cooptação de quase todos os partidos da ALERJ via emendas, cargos comissionados e distribuição de favores.

    • Forte aliança com grandes grupos empresariais fluminenses (empreiteiras, federações de transporte público rodoviário como a Fetranspor e concessionárias de serviços públicos).

2. Populismo Assistencialista e Religioso (Garotismo)

  • Políticos: Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho.

  • Perfil Ideológico: Centro-esquerda a centro-direita de corte populista, transitando por partidos como PDT, PSB, PMDB e PR.

  • Bases de Atuação:

    • Comunicação de massa (radialismo popular) combinada com programas sociais de forte apelo direto (como o Cheque Cidadão e o Restaurante Popular a R$ 1).

    • Vínculo direto com a base eleitoral evangélica pentecostal do interior fluminense (especialmente Norte e Noroeste do estado, com epicentro em Campos dos Goytacazes).

3. Direita Conservadora, Bolsonarismo e Punitivismo

  • Políticos: Wilson Witzel, Cláudio Castro e Roberto Jefferson.

  • Perfil Ideológico: Direita e extrema-direita conservadora, nacional-populista ou liberal-conservadora (PSC, PL, PTB).

  • Bases de Atuação:

    • Pauta da segurança pública dura (”tiro na cabecinha”, exaltação de forças policiais), anticomunismo, pautas morais cristãs e proximidade com o eleitorado bolsonarista.

    • Estruturas partidárias e contratações em secretarias de assistência social e saúde (como os escândalos da Fundação Leão XIII e compras emergenciais da pandemia de COVID-19).

4. Bancada Religiosa / Confessional

  • Políticos: Flordelis (PSD) e Chiquinho da Mangueira (PSC).

  • Perfil Ideológico: Direita conservadora e confessional.

  • Bases de Atuação:

    • Grandes comunidades e congregações evangélicas neopentecostais, utilizando institutos sociais e projetos beneficentes como plataformas eleitorais.

    • Em alguns casos, conexões diretas com agremiações culturais e esportivas tradicionais (escolas de samba e vilas olímpicas) no Rio de Janeiro.

5. Clientelismo Territorial e Conexão com Grupos Paramilitares

  • Políticos: Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Coronel Jairo.

  • Perfil Ideológico: Centro-direita clientelista e fisiológica tradicional.

  • Bases de Atuação:

    • Controle e representação de redutos eleitorais específicos (notadamente na Zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense).

    • Intermediação de serviços públicos locais, regularização fundiária informal, comércio clandestino e atuação próxima ou articulada com milícias armadas e operadores locais de poder.

    A relação entre a classe política fluminense e a criminalidade no Rio de Janeiro não se limita à corrupção tradicional de desvio de verbas; ela opera como um mecanismo de simbiose institucional, no qual o crime organizado e o Estado se retroalimentam por meio de quatro eixos centrais:

    A Simbiose com as Milícias e o Controle Territorial

    • Curral Eleitoral Armado: Diferente do narcotráfico clássico (que atuava predominantemente à margem do poder público), as milícias surgiram integradas por agentes do próprio Estado (policiais civis, militares, bombeiros e agentes penitenciários). Grupos paramilitares passaram a negociar ou impor o voto em determinadas comunidades, impedindo a entrada de adversários e elegendo diretamente seus representantes ou aliados.

    • Apropriação de Rendas Urbanas: Em troca do apoio político, mandatários facilitaram a ocupação ilegal do solo, loteamentos clandestinos, exploração monopolista de serviços (água, gás, internet, transporte alternativo) e a complacência na fiscalização urbana e ambiental (como evidenciado nas investigações do caso Marielle Franco e nas prisões da família Brazão).

    Sucateamento Institucional e Fuga de Recursos

    • Sangria Financeira: O desvio sistemático de recursos bilionários — exposto em investigações como a Lava Jato e operações correlatas na ALERJ e secretarias — drenou os cofres estaduais, resultando no colapso financeiro de 2016.

    • Impacto Operacional: Essa crise orçamentária desmantelou os investimentos estruturais em segurança pública: viaturas sem combustível, delegacias sem infraestrutura básica, atraso crônico de salários e armamento defasado em relação às facções e milícias.

    Instrumentalização da Cúpula da Segurança Pública

    • Proteção e Blindagem: O controle político sobre as nomeações das cúpulas da Polícia Civil e da Polícia Militar frequentemente serviu para proteger esquemas de corrupção, blindar aliados e frear investigações contra contraventores, milicianos ou operadores de propina.

    • Uso Eleitoral de Operações: Intervenções e operações policiais muitas vezes foram pautadas por conveniência eleitoral ou discursos punitivistas momentâneos, priorizando o confronto violento e a letalidade em áreas periféricas em detrimento da inteligência policial, da desarticulação financeira e da asfixia patrimonial dos grupos criminosos.

    Fortalecimento da “Narcopenetração” e do Narcopentecostalismo

    • Conexões do Tráfico e Novas Dinâmicas: A fragilidade institucional permitiu que o crime organizado expandisse sua influência para além das favelas, disputando contratos locais, cooperativas de transporte e articulações comunitárias.

    • Fenômeno Complexo: A expansão de lideranças religiosas aliadas a grupos armados (conhecido como narcopentecostalismo) criou uma rede em que intolerância religiosa, controle territorial e poder político confluem, influenciando eleições para câmaras municipais e a Assembleia Legislativa.

    Nas eleições gerais de 2026 no Rio de Janeiro, os principais blocos e grupos políticos disputam o Palácio Guanabara (Governo do Estado) e as duas vagas abertas para o Senado Federal:

    Centro Institucional e Gestão Pública (Pragmatismo / Máquina)

    Herdeiros da tradição do centro governista e da máquina administrativa do MDB/PSD, focados na articulação com a capital fluminense e setores empresariais:

    • Governo: Eduardo Paes (PSD) — Ex-prefeito da capital, lidera a coligação de centro com apelo à reconstrução de serviços e articulação interfederativa.

    • Senado: Pedro Paulo (PSD) — Deputado federal e economista, posicionado como alternativa técnica ao centro.

    Direita Bolsonarista, Punitivismo e Máquina da ALERJ

    Representam a continuidade da força conservadora e do controle da Assembleia Legislativa, com foco em segurança pública e pautas liberais/morais:

    • Governo:

      • Douglas Ruas (PL) — Presidente da ALERJ e aliado do grupo governista estadual.

      • André Marinho (Novo) — Discurso liberal e de oposição à política tradicional.

      • Coronel Busnello (Missão) — Plataforma estritamente voltada à segurança pública.

    • Senado:

      • Carlos Portinho (PL) — Senador em busca de renovação do mandato.

      • Carlos Jordy (PL) — Deputado federal com forte base no bolsonarismo raiz e em Niterói.

    Populismo Assistencialista (Garotismo)

    Tentativa de rearticulação do eleitorado histórico popular do interior fluminense após a recuperação de direitos políticos no Judiciário:

    • Governo: Anthony Garotinho (Republicanos) — Ex-governador que retorna à disputa direta pelo Executivo estadual.

    Bancada Confessional e Barões Regionais (Baixada / Republicanos)

    Articulação de lideranças de base territorial e religiosa:

    • Senado:

      • Marcelo Crivella (Republicanos) — Ex-prefeito do Rio, ex-senador e bispo licenciado da Igreja Universal.

      • Waguinho (Republicanos) — Ex-prefeito de Belford Roxo e liderança hegemônica na Baixada Fluminense.

    Esquerda e Campo Progressista

    Focados na oposição aos governos conservadores recentes, pautando direitos humanos, combate às desigualdades e serviços públicos essenciais:

    • Governo:

      • William Siri (PSOL) — Liderança comunitária e parlamentar com base periférica.

      • Juliete Pantoja (UP) / Cyro Garcia (PSTU) — Candidaturas de esquerda socialista/popular.

    • Senado:

      • Benedita da Silva (PT) — Ex-governadora e deputada federal histórica.

      • Mônica Benício (PSOL) — Arquiteta, vereadora e ativista de direitos humanos.

Um desenho de propostas para o futuro em relação à segurança pública

Olhando todo o histórico vamos discutir e trazer aqui quais são os projetos políticos mais adequado para trazer ao Estado do Rio de Janeiro e sua população um bem estar social e eliminar as mílicias e as facções?

Especialistas em segurança pública, criminologia, urbanismo e políticas públicas convergem em um ponto central: nenhum projeto baseado exclusivamente em incursões policiais bélicas ou em discursos punitivistas foi capaz de desmantelar o crime organizado no Rio de Janeiro.

A superação do ciclo de violência e a garantia de bem-estar social exigem um projeto de Estado integrado, estruturado em quatro eixos simultâneos:

Asfixia Financeira e Inteligência Patrimonial

Militias e facções não operam apenas como bandos armados, mas como conglomerados econômicos com faturamentos bilionários.

  • Rastreamento e confisco de bens: Foco em unidades de inteligência financeira (COAF, Receita Federal e Ministérios Públicos) para mapear empresas de fachada, postos de combustível, cooperativas de transporte e construtoras clandestinas.

  • Quebra dos monopólios territoriais: Desregulamentação e fiscalização direta sobre mercados explorados ilegalmente (fornecimento de botijões de gás, internet/gatonet, sinal de TV, distribuição de água e transporte alternativo).

Descontaminação Institucional e Controle da Segurança Pública

A singularidade do modelo criminoso fluminense reside na simbiose entre crime e agentes do próprio Estado.

  • Fortalecimento das Corregedorias e Controle Externo: Garantia de total independência e dotação orçamentária para as corregedorias da Polícia Militar e Civil, além de controle externo rigoroso e permanente pelo Ministério Público (MP-RJ).

  • Blindagem de órgãos fiscalizadores e reguladores: Despolitização de indicações técnicas no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Detran, Inea e Fundação Leão XIII, que historicamente serviram de moeda de troca política.

  • Valorização e reestruturação policial: Foco em remuneração digna, apoio psicológico, treinamento em direitos humanos e uso massivo de tecnologia investigativa (perícia criminal, monitoramento telemático e balística integrada).

Urbanismo Social e Retomada Territorial pelo Estado

O vácuo deixado pelo poder público na periferia e nas favelas é a principal condição de sobrevivência do poder paralelo.

  • Regularização Fundiária Urbana: O controle imobiliário informal é uma das maiores fontes de renda da milícia (especialmente na Zona Oeste). A titulação legal de imóveis e a fiscalização de obras pelo poder público retiram o domínio dessas áreas das mãos do crime.

  • Serviços Públicos Universais e Contínuos: Entrada permanente de saúde, saneamento básico, iluminação pública, transporte de qualidade e escolas em tempo integral, garantindo que o morador não dependa do aval de chefes armados para acessar direitos fundamentais.

  • Juventude e Oportunidades: Centros de formação técnica, inclusão digital, fomento à cultura comunitária e geração de emprego local para romper a cooptação de jovens pela criminalidade.

Integração Federativa e Reforma do Sistema de Execução Penal

O estado não possui capacidade financeira ou logística de atuar isoladamente.

  • Atuação Integrada com a União: Cooperação estruturada e perene entre Polícia Federal, Força Nacional, Marinha/Exército (no controle de fronteiras terrestres e portos de entrada de armas pesadas e drogas) e polícias estaduais.

  • Desarticulação dos Presídios como Quartéis-Generais: Isolamento efetivo de lideranças de facções e milícias em presídios federais de segurança máxima e reformulação dos presídios estaduais para impedir a gestão do crime de dentro das celas.

O modelo considerado mais sustentável pela literatura contemporânea em segurança pública combina o rigor investigativo e financeiro (típico da abordagem institucionalista) com a presença social contínua e garantia de direitos (matriz do urbanismo social).

Tratar a base social e os operadores de baixa patente engajados no ecossistema das milícias e facções exige diferenciar a liderança criminosa da massa funcional e comunitária cooptada. Em territórios dominados, o engajamento varia desde a coerção velada até a busca por renda, status ou sobrevivência.

Uma política pública eficaz para esse contingente opera em três níveis:

Deserção e Transição Econômica (Baixo Escalão)

A base operacional do crime (olheiros, “soldados”, entregadores de botijão, operadores de transporte clandestino, cobradores de taxas) é amplamente composta por jovens e trabalhadores informais sem alternativas econômicas viáveis.

  • Programas de Saída e Deserção: Criação de mecanismos de acolhimento e desvinculação protegida para jovens que desejam romper com o grupo criminoso, com apoio psicossocial, auxílio financeiro transitório e recolocação fora do território de influência.

  • Formalização de Serviços Monopolizados: Regularizar e absorver cooperativas locais de transporte alternativo, provedores comunitários de internet e distribuição de serviços básicos sob regulação oficial do Estado, retirando os operadores locais do controle das lideranças armadas e integrando-os à economia formal.

  • Qualificação e Empregabilidade Focalizada: Centros de formação técnica e capacitação digital diretamente instalados nas periferias, articulados com programas de primeiro emprego em parceria com o setor produtivo.

Tratamento Penal e Processual Proporcional

A legislação e o sistema de justiça criminal precisam calibrar a resposta conforme a gravidade da conduta, evitando transformar todo o elo fraco da cadeia em massa carcerária definitiva para facções.

  • Diferenciação Penal Efetiva: Focar penas privativas de liberdade em regime fechado e isolamento máximo para mandantes, lideranças armadas, agentes públicos corruptos e lavadores de dinheiro. Para os elos subalternos não violentos, privilegiar penas alternativas, monitoramento eletrônico e medidas socioeducativas com foco em profissionalização.

  • Interrupção do “Recrutamento Prisional”: O sistema penitenciário tradicional funciona como central de cooptação e fidelização. Separar rigidamente presos provisórios ou de menor periculosidade das lideranças de facções e milícias é essencial para evitar o aprofundamento do vínculo criminoso.