Do Brasil às ruas da Europa, a defesa da educação, dos direitos das mulheres, da população negra e da comunidade LGBTQIA+ nos obriga a perguntar: quem tem o direito de existir sem precisar se justificar?
Há momentos onde escrever deixa de ser apenas uma vontade de organizar os nossos pensamentos. Torna-se uma tentativa de entender e compreender o que está acontecendo ao nosso redor, enquanto a vida continua exigindo que a gente trabalhe, estude, pague as contas, cuide de alguém e encontre um jeito de não perder a esperança. Mas qual esperança se aquele lado ganhar?
É curioso como conseguimos normalizar tantas coisas até então abomináveis. Uma notícia sobre violência contra mulheres aparece entre uma propaganda de perfume e um vídeo de humor. Um caso de racismo divide espaço com a próxima polêmica ou até uma fofoca do entretenimento. A retirada de direitos vira discussão de gabinete, enquanto as pessoas afetadas tentam descobrir como continuar vivendo ou pior: sobrevivendo.
E a educação, que deveria nos ajudar a compreender tudo isso, também é transformada, mais uma vez, em campo de disputa.
Nos últimos tempos, tenho voltado a algumas questões que atravessam o Direto do Cantão: a cultura que perpetua a desigualdade entre homens e mulheres, o racismo que insistimos em tratar como um problema distante, a responsabilidade de educar e a importância de desenvolver pensamento crítico. São assuntos diferentes, mas existe um fio que os conecta: a disputa sobre quem pode falar, quem merece ser ouvido e quais vidas são consideradas importantes — a deles ou a de todos nós?
Talvez seja por isso que as notícias vindas de diferentes partes do mundo mereçam ser lidas em conjunto, sem perder de vista as particularidades de cada lugar.
Quando a desigualdade deixa de ser um acidente
No Brasil, discutir direitos das mulheres, da população negra e das pessoas LGBTQIA+ ainda significa enfrentar uma contradição persistente: reconhecemos formalmente direitos que, na prática, continuam sujeitos a disputas políticas, sociais e culturais (aliás, a Simone de Beauvoir já deu a canetada nos anos 70).
A violência de gênero não desaparece porque uma lei existe e é promulgada. O racismo não deixa de estruturar oportunidades porque uma campanha institucional usa diversidade em sua comunicação. Uma pessoa LGBTQIA+ não passa a estar segura simplesmente porque uma empresa publica uma mensagem de apoio durante o mês do orgulho.
Direitos precisam existir fora do papel, nas instituições, nas escolas, no mercado de trabalho, nos serviços públicos e nas relações cotidianas. Isso tem que ser 24 horas por dia, 7 dias por semana e não “para inglês ver”. O mesmo se aplica para a inclusão dos PCDs.
Quando grupos políticos defendem restrições ao debate sobre gênero, raça ou diversidade nas escolas, a discussão ultrapassa a escolha de um conteúdo pedagógico. O que está em jogo é a possibilidade de estudantes compreenderem a sociedade em que vivem e reconhecerem situações de discriminação que, muitas vezes, já fazem parte de sua realidade.
Em abril de 2026, por exemplo, a aprovação do novo Plano Nacional de Educação foi acompanhada de controvérsias sobre a formulação de compromissos relacionados à igualdade de gênero e à educação em direitos humanos. A alteração no texto aprovado levantou preocupações entre especialistas sobre a visibilidade dessas temáticas nas políticas educacionais (Folha de S.Paulo).
Não é necessário concordar com todas as propostas de um grupo político para reconhecer que o acesso ao conhecimento, a liberdade de ensinar e aprender e a proteção contra a discriminação são questões que merecem debate público responsável.
A pergunta é: quando uma sociedade começa a tratar o conhecimento sobre desigualdade como uma ameaça, quem se beneficia do silêncio?
A escola não é uma ilha
Quem trabalha com educação sabe que uma sala de aula nunca será completamente separada do mundo. Os estudantes chegam trazendo suas famílias, suas referências culturais, suas dificuldades econômicas, suas experiências de violência e suas perguntas.
Também chegam com o que aprenderam nas redes sociais, nos grupos de mensagens, nos vídeos de influenciadores e nas conversas em casa.
Por isso, educar não é apenas transmitir conteúdos e “tchau, até a próxima aula”. É criar condições para que alguém aprenda a questionar, comparar informações, reconhecer contradições e construir argumentos. É oferecer ferramentas para que uma pessoa não precise aceitar a primeira resposta que lhe apresentam.
Em uma de minhas reflexões sobre Paulo Freire, o diálogo aparece como parte fundamental do processo de ensino-aprendizagem. Essa ideia continua atual justamente porque o diálogo não significa concordar com tudo: significa reconhecer que a aprendizagem exige escuta, confronto de ideias e disposição para rever certezas.
Uma educação que não permite perguntas pode até produzir obediência. Mas, terá dificuldade para formar pessoas capazes de compreender a complexidade do mundo.
E isso importa especialmente quando todos esses discursos políticos que transformam professores em inimigos, tratam a diversidade como ameaça e apresentam a discussão sobre direitos humanos como uma espécie de doutrinação inexistente.
A escola não precisa impor uma visão única de mundo. Precisa permitir que diferentes visões sejam examinadas com rigor, respeito e responsabilidade. Portanto, todo o problema começa quando o medo de um debate substitui o próprio debate.
O que as ruas da França e da Espanha estão tentando dizer?
Em outubro de 2026, duas mobilizações europeias chamaram a atenção por motivos distintos, mas conectados por uma insatisfação social mais ampla.
Na Espanha, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em diversas cidades para protestar contra a crise habitacional, o aumento dos aluguéis e as dificuldades enfrentadas por quem tenta conquistar autonomia financeira. A moradia, cada vez mais inacessível para parte da população, tornou-se símbolo de uma promessa de estabilidade que parece distante para muitos jovens. Big Techs de moradia até aproveitaram da situação para comprar residências e transformar em lares temporários onde moraram famílias como a de Maricarmen e parte do país já está a frear esse movimento.
Na França, estudantes do ensino médio e universitários participaram de manifestações por melhores condições educacionais, denunciando a falta de professores, a precariedade das instalações escolares e as desigualdades no acesso à educação. Os protestos de 8 de outubro reuniram dezenas de milhares de pessoas em diferentes cidades e também foram marcados por confrontos com a polícia. The Guardian e Le Monde acompanharam as mobilizações.
Não seria correto transformar essas manifestações em um único movimento, como se todos os participantes compartilhassem a mesma ideologia ou defendessem as mesmas soluções. As reivindicações são diferentes, e as disputas políticas de cada país também têm suas particularidades.
Mas há uma pergunta que atravessa as duas situações: o que acontece quando uma geração começa a sentir que as estruturas sociais já não garantem condições mínimas para construir o próprio futuro do estudo, do trabalho e da aposentadoria?
Quando trabalhar não significa conseguir pagar um lugar para morar, quando estudar não significa encontrar uma escola com condições adequadas de funcionamento e quando as instituições parecem incapazes de responder a problemas cotidianos, a insatisfação deixa de ser apenas individual.
Ela ocupa as ruas.
E a rua, nesse contexto, não é necessariamente um lugar de desordem. É também um espaço de participação política, reivindicação de direitos e expressão de demandas que não encontraram respostas suficientes pelos canais institucionais.
Isso não significa romantizar todo protesto ou ignorar episódios de violência. Significa compreender que a existência de conflitos sociais não pode ser explicada apenas pela presença de pessoas nas ruas. É preciso investigar as condições que as levaram até ali.
O avanço da extrema direita e a disputa pelo que consideramos normal
É nesse cenário que o crescimento de movimentos e partidos de extrema direita merece a absoluta atenção da sociedade e das esferas reguladoras do processo político sociodemocrático (principalmente, a jurídica).
Em diferentes países, setores desse campo político têm defendido agendas que contestam políticas de diversidade, questionam iniciativas de igualdade de gênero, adotam posições restritivas sobre imigração e apresentam mudanças sociais como ameaças à identidade nacional ou aos valores tradicionais.
Essas posições não são idênticas em todos os lugares, e nem toda política conservadora pode ser automaticamente classificada como extremista. Ainda assim, quando projetos políticos procuram restringir direitos de grupos específicos ou enfraquecer mecanismos de proteção contra discriminação, seus efeitos precisam ser examinados concretamente.
O risco não está apenas em uma medida isolada. Está também na mudança gradual dos limites do debate público: aquilo que antes provocava indignação passa a ser tratado como opinião comum; aquilo que era reconhecido como discriminação passa a ser apresentado como uma questão de liberdade individual; aquilo que deveria garantir igualdade passa a ser acusado de conceder privilégios.
Nesse processo, mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ podem voltar a ser colocadas na posição de ter de justificar a própria existência, enquanto a educação é pressionada a evitar assuntos fundamentais para compreender a realidade.
O debate democrático precisa comportar divergências. Mas divergência não é uma licença para desumanizar pessoas, negar fatos ou retirar de determinados grupos a possibilidade de participar da vida pública em condições de igualdade.
E há uma diferença importante entre defender que ideias sejam debatidas e defender que certas pessoas tenham menos direitos por causa de quem são.
Quem protege quem cuida, quem ensina e quem aprende?
Há uma dimensão desse debate que me interessa particularmente: a responsabilidade coletiva.
Esperamos que professores resolvam conflitos, ensinem valores, acolham estudantes, identifiquem situações de vulnerabilidade e ainda garantam resultados educacionais, mesmo quando faltam recursos, equipes e condições adequadas de trabalho.
Esperamos que mulheres denunciem a violência, que pessoas negras combatam o racismo e que pessoas LGBTQIA+ eduquem quem as discrimina. Esperamos que as próprias pessoas afetadas pela desigualdade expliquem, repetidamente, por que merecem ser tratadas com dignidade.
É uma inversão curiosa: quem sofre o problema acaba recebendo também a tarefa de solucioná-lo.
Enquanto isso, as instituições que deveriam compartilhar essa responsabilidade nem sempre oferecem respostas proporcionais à dimensão dos desafios.
Não se trata de retirar a responsabilidade individual. Trata-se de reconhecer que problemas estruturais não podem depender exclusivamente da força, da paciência ou da capacidade de resistência de quem os enfrenta.
Uma sociedade democrática precisa de políticas públicas, instituições responsáveis, educação de qualidade e mecanismos efetivos de proteção. Precisa, também, de pessoas dispostas a participar da vida coletiva, mesmo quando a solução não é imediata.
A esperança não deveria ser mais um trabalho não remunerado imposto às pessoas que já carregam o peso da desigualdade.
Resistir também é não aceitar o esquecimento
Há algo de profundamente político em decidir o que merece ser lembrado.
Lembrar que o racismo não começou ontem. Que a luta das mulheres por autonomia não foi concluída. Que a população LGBTQIA+ ainda enfrenta discriminação. Que a escola pública precisa de investimento, valorização profissional e liberdade pedagógica. Que jovens precisam de moradia, perspectivas de trabalho e condições para imaginar um futuro possível.
Lembrar, principalmente, que nenhuma dessas questões existe isoladamente.
A desigualdade econômica pode ampliar a vulnerabilidade social. A discriminação pode limitar oportunidades. A precariedade educacional pode dificultar a mobilidade social. E discursos que deslegitimam determinados grupos podem tornar mais difícil até mesmo reconhecer esses problemas como problemas coletivos.
É por isso que as mobilizações populares merecem ser observadas para além das imagens de multidões, cartazes e confrontos. Elas revelam tensões que muitas vezes permanecem invisíveis até que alguém decida interromper a rotina.
Talvez não exista uma resposta simples para o que estamos vivendo. Tampouco precisamos transformar cada acontecimento em uma previsão de catástrofe.
Mas podemos nos recusar a tratar como inevitável tudo aquilo que é resultado de escolhas políticas, econômicas e sociais.
O futuro não se constrói sozinho
Escrever sobre o Brasil, sobre mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ e educação é, para mim, uma maneira de continuar tentando compreender as contradições do mundo sem fingimentos e sem rodeios, uma vez que estou entre os grupos que compõem a maioria nacional.
Não escrevemos a partir de um lugar neutro em relação à vida. Escolhemos assuntos, fazemos perguntas, reconhecemos problemas e decidimos quais experiências merecem atenção. O compromisso está em fazer isso com responsabilidade, sem abandonar a apuração e sem transformar a complexidade em slogans vazios.
As ruas da França e da Espanha não oferecem uma receita pronta para o Brasil. Mas nos lembram de que as sociedades não são estruturas imóveis e de que as pessoas podem se organizar para reivindicar mudanças.
Da mesma forma, a defesa da educação não deve depender de quem ocupa temporariamente o poder. Ela precisa ser um compromisso duradouro com a possibilidade de que cada pessoa aprenda, questione, participe e construa sua própria trajetória.
O que está em disputa não é apenas uma eleição, uma política pública ou uma discussão sobre costumes. É também a maneira como definimos o que significa viver em sociedade.
Queremos uma sociedade em que os direitos dependam da aprovação da maioria? Em que o conhecimento seja limitado pelo desconforto que provoca? Em que algumas pessoas precisem demonstrar constantemente que merecem a mesma segurança, dignidade e liberdade oferecidas a outras?
Ou queremos construir instituições capazes de proteger direitos, acolher diferenças e enfrentar desigualdades sem transformar cada pessoa em inimiga de quem pensa diferente?
Não tenho a pretensão de resolver essas perguntas em um texto. Talvez escrever seja justamente uma forma de mantê-las abertas, de impedir que respostas fáceis ocupem todo o espaço.
Porque, quando a educação perde espaço, perdemos ferramentas para compreender o mundo. Quando a dignidade de determinados grupos vira moeda política, todos precisamos prestar atenção. E quando as pessoas saem às ruas para exigir condições básicas de vida, vale a pena perguntar o que deixou de funcionar antes de simplesmente condenar o barulho.
O futuro não está garantido. Nunca esteve, aliás sempre na história testemunhamos e agora foi a nossa vez de encarar os riscos.
Mas também não está inteiramente decidido para aquele campo.
E talvez a primeira forma de resistência seja não permitir que nos convençam de que não há mais nada a fazer.







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