Caríssimos,
Ainda não superamos nem vencemos todas aquelas demandas que pareciam ter ficado nos tempos do Orkut. Sim, estou falando especialmente do período pós-2013, quando tantas discussões sobre comportamento, relacionamentos, liberdade e o papel das mulheres ganharam força — e, ao mesmo tempo, passaram a revelar contradições que ainda carregamos.
Às vezes, tenho a sensação de que estamos caminhando para uma era quase idêntica à de O Conto da Aia (aviso de antemão: se você tem problemas de saúde, não veja, é realmente pesado). Não necessariamente porque tudo ao nosso redor se tornou uma distopia explícita, mas porque determinadas ideias continuam sendo reproduzidas de maneira tão natural que deixamos de perceber o quanto elas limitam nossas escolhas.
E talvez uma das manifestações mais silenciosas disso esteja justamente nas amizades e nas redes de apoio entre mulheres.
Por que é tão difícil construir relações em que não exista uma competição velada? Por que tantas vezes somos ensinadas a desconfiar umas das outras? Por que o apoio precisa vir acompanhado de cobrança, comparação, julgamento ou expectativa?
Existe uma cultura que nos ensina desde cedo a disputar atenção, reconhecimento, beleza, sucesso e até afeto. E, quando percebemos, reproduzimos essas mesmas regras umas com as outras.
Não deveria ser necessário performar uma determinada versão de mulher para merecer amizade.
Não deveríamos precisar ser a amiga perfeita, a profissional perfeita, a mãe perfeita, a parceira perfeita ou a mulher que corresponde às expectativas de todo mundo para encontrar acolhimento.
Construir redes de apoio também significa reconhecer que mulheres diferentes podem existir, pensar e escolher de maneiras diferentes — e ainda assim se apoiar.
Talvez romper com essa cultura não seja apenas questionar os homens ou as estruturas externas. É também olhar para as relações que construímos entre nós e perguntar: que tipo de vínculo estamos reproduzindo?
Porque, se queremos uma sociedade diferente, precisamos começar também pelas pequenas comunidades que construímos ao nosso redor.
E talvez uma verdadeira rede de apoio comece justamente quando deixamos de perguntar “o que essa mulher tem a oferecer?” e passamos a perguntar:
“Como podemos caminhar juntas?”
A dica que lhes dou é O Conto de Aia, o livro que baseou uma das séries internacionais mais fortes em termos de produção, de mensagem, de enredo já vistas nos últimos anos (em um top 3 pessoal, está ao lado das sagas Guerra dos Tronos e o Senhor dos Anéis). Aliás, dizem que uma boa série conta e atrai as pessoas para o livro que, sim, possui muito mais episódios de violência e reflexão sobre as consequências de um passado que querem reviver sobre nós.
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