#44 — Vamos falar dos Data Centers

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Vamos começar por uma reflexão: como está sendo sua conta de água e luz?

No estado de São Paulo, por exemplo, famílias de Carapicuíba e região têm expressado indignação diante de valores cada vez mais difíceis de absorver. E, no meio dessa sensação de sufoco, surge um discurso recorrente: economize, reduza, ajuste seu consumo.

Mas e quando o problema não está só dentro de casa?

Enquanto a população é chamada à responsabilidade individual, existe uma infraestrutura silenciosa — e essencial — expandindo-se rapidamente: os datacenters. Eles sustentam praticamente tudo que usamos hoje, da nuvem à inteligência artificial. Só que esse funcionamento tem um custo físico — e hídrico — que raramente entra na conta pública.

Datacenters usam água, principalmente para resfriamento. E não é pouca.

Em alguns casos, uma única instalação pode consumir centenas de milhares a milhões de litros por dia para manter servidores operando sem superaquecimento (Tech Actual). Empresas como Google já reportaram consumo anual de bilhões de galões de água — número que cresceu rapidamente com a expansão da IA (TechTarget).

E o ponto mais invisível: a maior parte desse consumo não acontece nem dentro do datacenter.

Estudos recentes indicam que até cerca de 70%–75% do impacto hídrico está na geração de energia que alimenta esses sistemas — especialmente quando dependem de fontes como termoelétricas (Submer).

Ou seja: quando você usa um serviço digital, independentemente se utiliza ou não a IA, há água sendo consumida em dois níveis — no resfriamento e na eletricidade.

E isso começa a tensionar algo maior.

Em algumas regiões, datacenters já representam parcelas significativas do consumo municipal de água, ampliando disputas por recursos e pressionando infraestruturas locais (Tech Actual). Não é só uma questão ambiental — é social, econômica e política.

Então a pergunta muda:

não é só “quem está consumindo mais”
mas “quem está sendo cobrado por isso?”


Agora, se o problema é estrutural, a solução também precisa ser.

E aqui entra um ponto importante: existem caminhos — e eles não passam por sacrificar trabalhadores ou frear a tecnologia, mas por redesenhar como ela opera.

Algumas dessas soluções já estão em curso:

1. Refrigeração mais eficiente (ou sem água): Sistemas como liquid cooling, resfriamento por imersão e até soluções “dry cooling” reduzem drasticamente o uso direto de água. Em alguns casos, datacenters conseguem operar sem consumo hídrico direto (Submer).

2. Reuso e captação inteligente de água: Captação de água da chuva, uso de água de reuso (não potável) e sistemas de recirculação diminuem a dependência de água tratada urbana. Esta solução, proposta pela Microsoft precisa ser feita pra ONTEM em São Paulo.

3. Migração energética (o ponto mais crítico): Se até 70% do impacto hídrico está na energia, então migrar para fontes renováveis (como solar e eólica) reduz drasticamente o consumo indireto de água, já que essas fontes usam muito menos água por megawatt-hora gerado (L/MWh), em comparação com termoelétricas e até algumas hidrelétricas. (The Cooling Report).

4. Otimização inteligente com IA (o paradoxo interessante): Algoritmos já estão sendo usados para otimizar temperatura, carga de trabalho e distribuição de processamento entre datacenters — reduzindo consumo de água e energia simultaneamente (arXiv).

5. Planejamento territorial e transparência: Uma das principais críticas hoje é a falta de transparência e planejamento: onde instalar datacenters? Em regiões com escassez hídrica? Com qual contrapartida social? Esse debate ainda está começando, mas tende a ser central nos próximos anos (Data Centre Magazine).


Percebe como a discussão muda?

Não se trata de “parar a tecnologia” — até porque isso não é uma opção real.
Mas também não dá para manter o discurso de que tudo se resolve com consumo consciente individual.

Porque, no fim, a conta continua chegando.

Só que agora ela vem fragmentada:
na tarifa de água,
na tarifa de energia,
na pressão sobre recursos públicos,
e na invisibilidade de quem realmente consome em escala.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “como economizar mais em casa”.

Mas sim:

que tipo de infraestrutura estamos sustentando —
e quem está sendo responsabilizado por isso?



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