#45 — Cadê meu feedback?

Nos últimos anos, quem trabalha com tecnologia — seja como desenvolvedor, analista ou cientista de dados — aprendeu sobre uma palavra nova na prática: layoff (ou passaralho). E não foi por escolha, foi por uma realidade muito estranha.

Talvez, o mais curioso não seja a demissão em si. É o silêncio que vem junto dela. Afinal, no fundo, a pergunta que ecoa depois de um corte não é “por que fui demitido ali?”, mas sim: por que ninguém me disse nada antes?

A cultura de feedback (em bom português, um alinhamento) nas empresas — inclusive no Brasil — ainda parece presa em um paradoxo.

Sabemos que um bom alinhamento é essencial: pesquisas da FIA Employee Experience (FEEx) mostram que ele é um dos principais fatores de desenvolvimento profissional. Porém, isso não é bem desenvolvido: a mesma base indica que cerca de 20% a 24% dos trabalhadores não recebem feedback regularmente, enquanto levantamentos com mais de 150 mil profissionais apontam esse como um dos maiores pontos fracos da gestão no país.

E aí mora o problema: quando a prática do feedback não acontece durante o processo, ele aparece… no desligamento. E o desligamento, raramente vem com cuidado.


Uma pesquisa da IntoO em parceria com a Workplace Intelligence (2025) aponta que 60% dos profissionais dizem que líderes não demonstram empatia ao demitir, e cerca de 40% perdem confiança na empresa após layoffs.

Ou seja: não há preparo antes, nem amparo depois.

É quase como se o ciclo do trabalho fosse:

contratar rápido → exigir muito → explicar pouco → cortar seco

E isso fica ainda mais contraditório quando olhamos o cenário de tecnologia.

Há um discurso constante sobre escassez de talentos sêniores — inclusive com estudos apontando falta de profissionais qualificados no Brasil. E, ao mesmo tempo, pesquisas com desenvolvedores mostram que fatores como baixa satisfação, falhas de comunicação e ausência de reconhecimento estão entre os principais motivos de saída.

Então a pergunta persiste: se falta gente, por que ainda se perde tanto talento? E parte da resposta pode estar na qualidade — ou na ausência — do próprio feedback.

Estudos discutidos pela Harvard Business Review indicam que:

  • 67% dos profissionais dizem que feedbacks negativos são baseados em informações incompletas

  • 44% relatam experiências hostis ou pouco construtivas

Além disso, pesquisas acadêmicas mostram que a falta de feedback aumenta a probabilidade de desligamento, enquanto feedbacks mal conduzidos podem até piorar o desempenho do profissional e da percepção sobre a empresa.

Ou seja: não é apenas a falta de feedback o problema. É a falta de um alinhamento realmente construtivo que realmente ajude o profissional.


E aqui entra um ponto ainda mais delicado — e pouco discutido. Passou a ser comum ver profissionais tecnicamente fortes sendo desligados, enquanto outros — nem sempre tão preparados — são promovidos.

Existe até um conceito clássico, o Princípio de Peter, que sugere que pessoas são promovidas até atingirem um nível de incompetência.

Mas, no contexto atual, a pergunta muda para: e os dados que comprovam — ou refutam — isso na prática?

Porque, apesar de toda a obsessão por dados no mundo de tecnologia, ainda há uma carência enorme de estudos que cruzem:

  • qualidade técnica real

  • critérios de promoção

  • critérios de demissão

  • impacto dessas decisões nos times

Sem isso, tudo vira percepção. E percepção, dentro do ambiente corporativo, vira política. Enquanto tudo isso acontece, os efeitos são bem concretos para os profissionais.

Estudos sobre comportamento organizacional mostram que layoffs não afetam só quem sai — eles aumentam a rotatividade, reduzem a confiança e impactam diretamente a produtividade de quem fica.

E aí a empresa entra num ciclo perigoso:

perde talento → desorganiza times → sobrecarrega quem fica → perde mais gente do que demitiu

No fim, a pergunta “cadê meu feedback?” não é uma questão individual. Ela é estrutural e coletiva.

É sobre empresas que ainda não aprenderam a:

  • desenvolver pessoas com clareza

  • comunicar expectativas com honestidade

  • encerrar ciclos com responsabilidade

Porque feedback não deveria ser uma surpresa no fim da linha. E sim, um mapa durante o caminho.

E, talvez, se esse mapa existisse de verdade, essa rotatividade aloprada não existiria e os profissionais poderiam seguir com seus planos A, sem pensar em criar um B e/ou C.

Referências

FIA – Fundação Instituto de Administração. Employee Experience (FEEx): Pesquisa de clima organizacional. 2023.

FREITAS, W. et al. Developer Turnover in Brazilian Companies: Causes and Effects. arXiv, 2019.

FGV – Fundação Getulio Vargas. Layoffs: causas, consequências e possíveis caminhos. 2022.

INTOO; WORKPLACE INTELLIGENCE. Global Layoff Survey. 2025.

KLUGER, A. N.; DENISI, A. The Effects of Feedback Interventions on Performance: A Historical Review. Psychological Bulletin, 1996.

UOL Economia. Dar feedback é o maior ponto fraco na gestão brasileira, diz pesquisa. 2020.



Muito obrigada por acompanhar essa publicação feita com carinho para vocês. Para apoiar esta que vos escreve, você pode mandar a sua doação por aqui, via Gravatar. Ou você pode comprar um de meus livros disponíveis em várias plataformas de e-books ou na Amazon.

Mas caso esteja ali escrevendo, pela primeira vez, quer uma consulta? Quer saber se seu texto está certinho, coeso, pronto pra arrebentar no Enem — por exemplo? Venha agendar por aqui ou aguarde a volta da Oficina “Vamos Escrever”. Faça sua reserva no link, pois assim que atualizar os conteúdos, o VE está de volta.

— Ah, e você pode assinar, com seus amigos, o Direto neste botão.

Obtenha 20% de desconto numa subscrição de grupo