Antes de Tudo, um Inventário
Existe um tipo específico de coragem que ninguém te ensina na escola.
Não é a coragem de levantar a mão quando ninguém mais levanta. Não é a de chegar num lugar novo e fingir que sabe onde ficam as coisas. É uma coragem mais quieta, mais doméstica — a de sentar diante de você mesma e fazer as contas do que sobrou.
Eu aprendi essa coragem tarde. Ou talvez no tempo certo. Ainda não sei.
Quinze anos atrás, eu era aluna.
Não o tipo de aluna que aparece nos cartazes motivacionais — concentrada, caderno aberto, caneta na mão, futuro nos olhos. Era o tipo mais comum, mais humano: aquela que olhava pela janela da sala e se perguntava, em silêncio, se aquilo tudo iria algum dia fazer sentido. Os professores chegavam com suas certezas embrulhadas em planos de aula, e eu anotava, devolvia nas provas, e seguia. Aprendi a jogar o jogo sem nunca perguntar as regras em voz alta.
O que eu não sabia, sentada naquela cadeira, é que estava absorvendo tudo.
Não só o conteúdo. Os gestos. Os tons de voz. A forma como um professor atravessa uma sala quando quer que alguém preste atenção. A pausa antes da resposta difícil. O jeito como o olhar varre a fileira do fundo e finge que não está procurando ninguém específico — mas está.
Eu anotava, mas registrava mais do que palavras.
Passaram-se uns sete anos, e a vida me levou para onde a vida costuma levar quem não tem um plano rígido: um escritório.
Projetos que chegavam cheios de promessa e saíam pela metade. Reuniões onde todo mundo concordava com tudo e nada avançava. Planilhas que contavam histórias que os números sozinhos não conseguiam terminar. Tinha algo de satisfatório naquilo — a lógica, a estrutura, a sensação de que existia uma resposta certa em algum lugar, e que bastava encontrá-la.
Mas havia também, sempre, uma inquietação.
Não do tipo que grita. Do tipo que fica. Que aparece na segunda de manhã antes do café, que senta do seu lado no ônibus, que te olha no espelho enquanto você escova os dentes e não diz nada, mas não vai embora.
Eu não sabia ainda o nome daquilo.
Numa manhã de novembro — ou talvez dezembro, pois 2023 tinha essa luz ambígua de fim de ano que embaralha as datas — eu me sentei diante de uma banca.
Uma aula teste. Uma escola técnica. Uma oportunidade que eu tinha perseguido com a seriedade de quem persegue coisas que, no fundo, sabe que precisa.
Não preparei slides.
Não sei bem explicar essa decisão — ou talvez saiba, mas só entendi depois. Havia algo em mim que precisava estar exposta de verdade, sem camadas, sem a proteção de um projetor entre mim e aquelas pessoas. Se eu fosse cair, que caísse inteira. Se fosse funcionar, que funcionasse por mérito próprio.
Levei o giz. E a cabeça cheia.
A ansiedade chegou antes de mim, como sempre faz. Ficou do lado de fora enquanto eu me arrumava, entrou junto no elevador, sentou na primeira fileira enquanto eu organizava os pensamentos de pé, de costas para a banca, olhando para o quadro negro ainda limpo. Existe uma brutalidade específica no quadro negro limpo. Ele não sugere nada. Não acolhe. Só espera.
Respirei.
E comecei a desenhar.
Primeiro um boneco — simples, despretensioso, o tipo que qualquer criança faz com quatro traços. Mas havia uma intenção naquele boneco. Ele não estava parado. Estava no meio de alguma coisa, cercado de setas, de caminhos que se abriam para lados diferentes. Fui desenhando as rotas de navegação ao redor dele — as escolhas, os fluxos, a lógica de como um usuário atravessa uma experiência sem perceber que alguém pensou em cada passo daquele caminho.
A sala ficou quieta.
Eu falei. Desenhei. Apaguei um trecho e corrigi em tempo real, porque o pensamento pediu. Não havia roteiro fixo — havia direção. E dentro dessa direção, a ansiedade foi, aos poucos, trocando de função. Deixou de ser ruído e virou combustível.
Quando chegou a hora das perguntas, alguém da banca me perguntou sobre minha experiência em sala de aula.
Eu poderia ter dado uma resposta vaga. Tinha material suficiente para construir algo que soasse bem, que preenchesse o silêncio com competência arrumada. Mas tinha acabado de passar vinte minutos sendo honesta num quadro negro na frente de desconhecidos, e não fazia sentido parar agora.
— Nunca fui professora — eu disse. — Até agora.
O silêncio durou exatamente o tempo de uma respiração.
E então, um dos professores da banca sorriu.
Não o sorriso educado de quem está encerrando uma conversa. O outro tipo — o que significa que algo verdadeiro acabou de acontecer na sala. O sorriso de quem já esteve do outro lado dessa mesma coragem, em alguma sala parecida, anos atrás, e reconhece o gesto.
— A gente percebe quando alguém quer estar aqui de verdade — ele disse.
Fui acolhida como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Como se a ausência de experiência não fosse uma lacuna, mas um espaço ainda por escrever. Me disseram que voltasse.
E eu voltei.
Do lado que eu deixava: a planilha, o projeto sem conclusão, a inquietação sem nome que ficava sentada do meu lado no ônibus.
Do lado que eu levava: menos certezas, mais perguntas. Um par de sapatos que aguentasse o tranco. A mania de achar beleza em prédios cinzas. E a estranha, teimosa, improvável convicção de que crescer não é chegar — é aprender a arrumar as malas enquanto o trem já está em movimento.
Cuidado: obra eterna em progresso.
É isso que você tem nas mãos agora. Não uma história de chegada. Não um manual de como se torna alguém. Mas o relato honesto de uma mulher que foi aluna, virou professora, e descobriu — sentada num campus enorme com um mapa que mente sobre as distâncias — que essas duas coisas nunca foram tão diferentes assim.
Algumas estações terão sol.
Outras serão névoa.
O truque — aprendi isso da forma mais difícil — é não esquecer de olhar pela janela.
Bem-vindos à saga.
Essa saga terá continuação em breve. Se não por aqui, será em um novo livro.









