Greve na USP: Docentes entraram!

Manifestação vitoriosa contra Tarcísio reuniu milhares; governo mandou PM bloquear a marcha, mas depois recebeu estudantes

Imagem: Daniel Garcia / ADUSP

Finalmente, ufa.

Os docentes da USP aprovaram, no fim da tarde desta segunda-feira (25), a adesão à greve. Às 17h20, a paralisação foi oficialmente aprovada, unificando a mobilização com os colegas da Unesp e da Unicamp, além dos funcionários técnico-administrativos que já entraram na quinta semana de greve.

Mas para entender como chegamos até aqui, é preciso olhar para os últimos dias — e para a forma como a reitoria e parte das direções de institutos decidiram lidar com o movimento.

Na última semana, estudantes de diferentes unidades da USP receberam, por e-mail institucional, comunicados que foram interpretados como ameaças de jubilamento aos calouros caso a greve persistisse. O problema é que o próprio regulamento acadêmico desmonta o tom alarmista: o jubilamento não ocorre por simples adesão à greve ou ausência decorrente de paralisação coletiva, mas sim por reprovações generalizadas, faltas excessivas e baixo rendimento acumulado.

A própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) assegura a autonomia universitária e estabelece princípios de gestão democrática do ensino público. Já o direito de greve dos trabalhadores está garantido pela Constituição Federal. Em paralelo, o movimento estudantil possui legitimidade histórica e política enquanto forma de organização coletiva dentro das universidades públicas. Greve não é abandono institucional: é instrumento legítimo de reivindicação diante da ausência de negociação efetiva.

Ainda assim, parte das direções preferiu apostar no medo.

O caso do IF-USP ganhou repercussão após comunicações enviadas a alunos de bacharelado e licenciatura, ampliando a tensão entre os calouros — muitos deles recém-chegados à universidade pública. E aqui surge uma questão inevitável: qual o sentido de produzir pânico institucional num cenário em que os cursos de licenciatura já enfrentam evasão elevada, baixa procura e dificuldades crescentes na formação de novos docentes?

Darcy Ribeiro talvez resumisse isso em poucas palavras: não é acidente. É projeto.

Pela manhã, os estudantes em greve reforçaram os piquetes de maneira organizada e pacífica, orientados a evitar qualquer tipo de confronto e responder às provocações com inteligência emocional. Houve tentativas de intimidação, inclusive chamadas à polícia, mas sem qualquer ocorrência relevante. As salas permaneceram vazias em diversos cursos — inclusive entre os próprios calouros — em demonstração de solidariedade ao movimento.

À tarde, os docentes se reuniram no Auditório Jafet, no IF-USP, para a assembleia mais aguardada das últimas semanas. Entre os debates centrais estavam a unificação da greve, a necessidade de diálogo com os estudantes, as condições de trabalho, a valorização docente e o futuro das negociações salariais.

Porque o impasse também passa pelo orçamento.

Até agora, o reajuste reivindicado por docentes e funcionários segue indefinido. A proposta apresentada pela gestão foi vista como insuficiente e concentrada em critérios de “produtividade”, aprofundando críticas sobre precarização e desigualdade dentro da carreira universitária. Segundo relatos feitos durante a assembleia, a mesa de negociação realizada pela manhã terminou sem avanços concretos.

E então veio a votação.

Por ampla maioria — estimada entre 85% e 90% dos presentes, entre votos presenciais e simbólicos — os docentes aprovaram a paralisação. O resultado representou não apenas a adesão formal à greve, mas também uma resposta direta ao clima de pressão e assédio moral denunciado por estudantes ao longo dos últimos dias.

A partir das 17h20, a greve docente na USP começou oficialmente.


Quais são as pautas docentes? E como elas se convergem?

O que aparece tanto nos comunicados da Adusp quanto nas falas do Fórum das Seis é que a greve docente deixou de ser “apenas salarial” há algum tempo. Ela passou a convergir diretamente com as pautas do movimento estudantil, principalmente em torno da defesa da permanência, da universidade pública e contra a precarização estrutural da USP.

Dá pra organizar essa convergência em alguns grandes eixos:

1. Permanência estudantil e combate à evasão

Os estudantes colocaram no centro da greve pautas como:

  • aumento do PAPFE;

  • moradia estudantil;

  • restaurantes universitários;

  • transporte;

  • permanência de alunos pobres e cotistas.

E os docentes passaram a defender isso abertamente também. A própria Adusp publicou que o custo para equiparar a bolsa PAPFE ao salário mínimo paulista representaria apenas 1,9% do orçamento da USP.

Além disso, docentes vêm afirmando que a mobilização estudantil é “forma legítima de luta em defesa da universidade”.

Ou seja: a leitura compartilhada é que não existe “excelência acadêmica” sem permanência material.


2. Contratação de docentes e crítica ao sucateamento

Esse talvez seja o ponto mais forte de convergência histórica.

Os estudantes denunciam:

  • salas lotadas;

  • falta de professores;

  • fechamento informal de disciplinas;

  • sobrecarga;

  • queda da qualidade de ensino.

Enquanto isso, os docentes denunciam:

  • congelamento de contratações;

  • arrocho salarial;

  • intensificação produtivista;

  • expansão sem reposição de quadros.

A própria Adusp e o Andes lembram que a pauta estudantil por contratação docente já integra as reivindicações do Fórum das Seis há anos.

Então, na prática, estudantes e professores estão apontando para o mesmo problema estrutural: a universidade expandiu acesso sem expandir proporcionalmente investimento humano e social.


3. Crítica ao produtivismo e à lógica gerencial

Outro ponto importante foi a reação à GACE (gratificação voltada a “atividades estratégicas” e produtividade).

A Adusp criticou fortemente a medida, argumentando que ela:

  • fragmenta a carreira;

  • cria competição interna;

  • privilegia produtividade quantitativa;

  • aprofunda desigualdades dentro da universidade.

O movimento estudantil conecta isso ao avanço de uma lógica empresarial dentro da USP:

  • precarização;

  • terceirização;

  • elitização;

  • enfraquecimento do ensino e da extensão.

Por isso aparecem palavras como “privatização branca”, “universidade-empresa” e “desmonte”.


4. Rejeição à repressão e defesa do diálogo

A Adusp publicou críticas duras ao uso de ameaças institucionais e à presença policial nas mobilizações.

Também houve apoio de docentes contra:

  • desocupações forçadas;

  • criminalização do movimento;

  • tratamento disciplinar aos grevistas.

Isso converge diretamente com a denúncia estudantil de:

  • assédio moral;

  • intimidação;

  • ameaça de jubilamento;

  • repressão administrativa.

A linguagem usada pela Adusp é significativa: “diálogo”, “escuta qualificada”, “mediação” e “respeito mútuo”.


5. Defesa da universidade pública como projeto político

Talvez o eixo mais profundo seja esse.

Os docentes passaram a enquadrar a greve não apenas como disputa salarial, mas como reação a um modelo de universidade baseado em:

  • austeridade;

  • produtividade;

  • precarização;

  • dependência de fundações e cursos pagos;

  • redução do papel social da universidade pública.

Já os estudantes articulam isso à dificuldade concreta de permanecer na USP.

Por isso as pautas se encontram tão facilmente:

  • permanência estudantil;

  • contratação;

  • valorização docente;

  • combate ao sucateamento;

  • assistência;

  • democratização universitária.

A greve acaba funcionando como uma espécie de coalizão entre quem ensina, quem trabalha e quem tenta permanecer estudando dentro da universidade.

E isso ajuda a explicar por que a adesão docente ganhou tanta força depois das ameaças institucionais aos estudantes: muitos professores passaram a enxergar aquilo como um rompimento simbólico importante dentro da própria relação universitária.


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