Nem toda reprovação é apenas uma reprovação

Na quarta-feira (29), o Plenário do Senado rejeitou, por 42 votos contrários a 34 favoráveis, a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Um placar simples. Uma derrota institucional. Mas o que está em jogo raramente é só um nome.

É um sintoma. Um recorte. Um ponto visível de algo muito maior que se movimenta nos bastidores das instituições.

A rejeição é a primeira em 132 anos — desde 1894, no governo do marechal Floriano Peixoto, o Senado não derrubava uma indicação ao Supremo. Isso, por si só, já seria suficiente para tratar o episódio como um marco. Mas o que ele carrega é ainda mais denso.


O cargo que Messias ocupava não é qualquer cargo: é a AGU

À frente da Advocacia-Geral da União, ele exercia um papel estratégico: o de traduzir juridicamente decisões políticas. A AGU é o ponto de contato entre o poder executivo e o campo do direito — e por isso, qualquer movimento de desgaste em torno do seu nome sempre ultrapassou o campo individual. Toca na engrenagem que sustenta a relação entre governo, lei e legitimidade.

Desde a sua indicação, em novembro do ano passado, a escolha por Messias tensionou a relação entre o Congresso e o Executivo. O presidente Lula o indicou sem comunicar previamente o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que defendia o nome de Rodrigo Pacheco para a vaga. O resultado foi um desgaste que se acumulou durante meses — e explodiu ontem à noite.


O “cavalo de Tróia” que ninguém viu entrar.

Aqui está o ponto mais interessante — e mais negligenciado pelo debate público.

A votação foi apresentada como uma disputa técnica: um candidato, uma sabatina, um placar. Mas por dentro, ela carregava três movimentos simultâneos:

→ A criação de um precedente institucional. O Senado acabou de demonstrar que pode — e vai — barrar indicações presidenciais ao STF. Bolsonaristas já articulam com Alcolumbre para barrar eventuais novas indicações de Lula ao posto até a eleição de outubro, alegando que qualquer novo nome precisará ser previamente pactuado com a Casa.

→ A reorganização de narrativas políticas. Flávio Bolsonaro classificou o resultado como “uma vitória da oposição” e um “bom sinal de que a democracia pode voltar a respirar” — uma disputa de enquadramento que projeta a derrota do governo como argumento eleitoral para 2026.

→ O deslocamento de forças dentro do próprio governo. Messias e seus aliados passaram as primeiras horas após a derrota contabilizando traições dentro da própria base governista. As desconfianças recaem sobre o MDB e nomes próximos a Alcolumbre. Até mesmo a postura do líder do governo no Senado, Jacques Wagner, passou a ser questionada — repercutiu mal a imagem de Wagner abraçando Alcolumbre após o anúncio do resultado.


O placar que surpreendeu até quem estava dentro.

Não foi só uma derrota. Foi uma derrota acompanhada de uma percepção equivocada — o que é politicamente ainda mais grave.

O governo calculava ter o apoio de 45 senadores. Integrantes da oposição afirmavam ter ao menos 30 votos contrários. Como a votação é secreta, havia incerteza nas estimativas — e aliados do governo chegaram a falar em 48 votos favoráveis minutos antes do resultado.

O placar real foi 42 contra 34.

Isso significa que o governo não apenas perdeu — ele não sabia que estava perdendo. E essa opacidade é, em si, um dado político: revela a fragilidade da articulação do Executivo no Congresso, a volatilidade dos votos da base aliada e a força de Alcolumbre como operador de veto.


O que essa reprovação autoriza a acontecer daqui pra frente?

Essa é a pergunta que fica.

O diagnóstico nos bastidores é de que Lula avalia nomear Messias ao Ministério da Justiça — uma espécie de “prêmio de consolação” que o manteria em evidência para uma eventual nova indicação ao STF no futuro, ao mesmo tempo que fortaleceria sua posição política e blindaria sua imagem após a derrota.

Se isso se confirmar, a reprovação deixa de ser um fim e passa a operar como um realinhamento. Messias sai do STF e entra na Justiça — com mais visibilidade pública, mais poder de articulação e, provavelmente, com uma conta a ajustar.

No jogo político, quase nada é neutro.

A crítica a uma figura estratégica como essa raramente encerra o capítulo — ela abre o próximo. O que está em disputa agora não é apenas quem vai à vaga do Supremo. É quem dita os termos da próxima indicação. Quem controla a pauta. E quem, no fim das contas, saiu do episódio de ontem com mais poder do que entrou.

Pela primeira vez em 132 anos, o Senado derrubou uma indicação presidencial ao STF. Isso representa uma crise de grandes proporções ao Palácio do Planalto — e um novo equilíbrio de forças que ainda vai se desdobrar nos próximos meses, à sombra das eleições de 2026.

A reprovação foi ontem. As consequências, ainda estamos vendo nascer.


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