#36 – Ah, fujão…

Foto Dicas Brasil Aprenda a Usar o Ponto de Fuga Como Elemento De ...

A sensação de fuga, de escape, de uma responsabilidade que o persegue.

Antes de começar: a inspiração de hoje veio junto um grupo de colegas e amigos, que estavam a comentar as noticias comigo e lembrei de um dos clássicos do funk. Afinal, “o jumento e o cavalinho, eles nunca andam só”.


O Brasil é mestre em produzir histórias que desafiam a fronteira entre a tragédia e a comédia. A cada semana, somos surpreendidos por episódios que parecem saídos de um roteiro surreal, desses que fariam Fellini ou Glauber Rocha sorrirem incrédulos. O mais recente capítulo dessa novela nacional envolve duas tentativas frustradas de fuga: de um lado, um ex-presidente tentando escapar das próprias sombras; de outro, um acusado de adultizar uma menina de apenas 16, 17 anos, igualmente tentando despistar a Justiça (destacado no post recomendado).



Ambos fracassaram. Mas o detalhe que transformou a narrativa em espetáculo popular foi o vazamento das mensagens trocadas entre o ex-presidente e seu filho. Conversas íntimas, quase domésticas, em meio a uma crise que deveria mobilizar estratégias de Estado. O que era para ser uma trama política de alto risco virou piada nacional, com direito a trilha sonora pronta: “Eguinha Pocotó”, hit de MC Serginho que embalou os anos 2000 e agora ressurge como a metáfora perfeita para a correria desengonçada dos poderosos.

A canção, repetitiva e hipnótica em seu “pocotó, pocotó, pocotó”, representa bem essa marcha apressada rumo a lugar nenhum. O galope de quem acredita que pode atravessar fronteiras ou escapar da lei apenas no grito, na teimosia, no improviso. Não é plano estratégico, é apenas correria. Não é saída, é fuga improvisada. E, como todo improviso desesperado, termina em tropeço.

Esse é o ponto onde a política brasileira se confunde com a caricatura. O ex-presidente, que jamais queria encarnar a imagem da liderança firme e racional, se vê reduzido a um personagem quase carnavalesco, que corre, tropeça, troca mensagens banais e acaba preso até em sua própria paródia. Do outro lado, o acusado de violar a adolescência de uma jovem, que tenta escapar da lei como se fosse possível galopar para fora do alcance do Estado, também termina detido — lembrando-nos de que crimes desse tipo não cabem em metáforas leves: são graves, dolorosos e exigem punição exemplar.

Mas o Brasil, sempre ele, mistura gravidade e farsa num mesmo caldeirão. E, como já sabemos, é nessa mistura que a cultura popular encontra combustível. Nas redes sociais, memes pipocam, edições com a batida de hits viralizam, e a figura do político outrora poderoso se vê reduzida ao ridículo. A comitragédia é formada — não porque não doa aos familiares e amigos de tantos que faleceram naquela outrora catástrofe da pandemia, mas porque a ironia é uma das formas de suportar o peso do absurdo.

No fundo, estamos diante de um retrato fiel do Brasil contemporâneo: um país em que criminosos sexuais e ex-mandatários da nação compartilham a mesma lógica da fuga, como se pudessem atravessar a história a galope, fugindo das próprias responsabilidades. Ambos tropeçam, ambos fracassam, ambos escancaram a fragilidade de quem acredita estar acima da lei.

E assim seguimos, espectadores de um enredo que não para de se repetir. A cada capítulo, a cada escândalo, a cada fuga frustrada, a sensação é a mesma: vivemos num looping de absurdos. Mas o povo brasileiro, criativo como sempre, encontra na música, no humor e na sátira uma forma de transformar indignação em crítica.

Pocotó, pocotó, pocotó, minha eguinha pocotó” — o refrão ecoa como mantra de um tempo em que os poderosos galopam em círculos, tentando escapar de si mesmos, mas sempre voltando ao mesmo lugar. No final, a justiça ainda é mais lenta do que deveria, mas não deixa de aparecer. Já o ridículo, esse chega sempre em disparada.

E talvez seja isso que reste como síntese: no Brasil, quando a Justiça finalmente alcança quem corre, não é a imagem da força do Estado que fica gravada na memória coletiva, mas sim a do tropeço. Porque não há fuga que dure para sempre, nem mentira que resista ao tempo. O ex-presidente, o acusado, os que acreditam ser intocáveis — todos acabam virando personagens menores de um espetáculo maior, reduzidos ao riso amargo do povo. E, enquanto eles galopam em círculos, tentando escapar, a trilha sonora permanece a mesma: o “pocotó” que marca o compasso da queda, do ridículo e da história.